12/08/2026
O folclore, à luz do pensamento de Florestan Fernandes
O folclore, à luz do pensamento de Florestan Fernandes

O folclore, à luz do pensamento de Florestan Fernandes

Bom Dia SC – Em preliminar, o folclore constitui uma das manifestações mais significativas da vida coletiva. Presente nas festas, brincadeiras, crenças, lendas, músicas, danças, provérbios e costumes transmitidos entre gerações, ele expressa formas particulares de compreender o mundo e de organizar as relações sociais. No pensamento de Florestan Fernandes, contudo, o folclore não deve ser entendido apenas como um conjunto de tradições antigas ou como uma herança cultural preservada de maneira estática. Para o sociólogo, sua análise exige considerar as funções sociais exercidas por essas manifestações e as transformações provocadas pelas mudanças históricas.

De ouro lado, Fernandes iniciou sua trajetória intelectual realizando pesquisas sobre manifestações folclóricas, especialmente aquelas existentes na cidade de São Paulo. Em seus estudos sobre as brincadeiras infantis, os grupos de crianças e as tradições populares, procurou demonstrar que o folclore poderia ser investigado cientificamente. Desse modo, afastou-se de uma abordagem meramente descritiva, limitada ao registro de cantigas, lendas e costumes, para examinar como essas práticas se relacionavam com a estrutura da sociedade.

Entre seus contributos avulta compreender o folclore como parte ativa do processo de socialização. Nas brincadeiras infantis, por exemplo, as crianças não apenas repetem gestos e cantigas recebidos das gerações anteriores. Elas aprendem regras, desempenham papéis, estabelecem formas de liderança, solucionam conflitos e assimilam valores presentes na sociedade. O grupo infantil funciona, destarte, como um espaço de formação social relativamente autônomo, no qual a criança participa da criação e da transmissão de padrões culturais.

Destarte, Essa perspectiva permite perceber que o folclore não é um elemento secundário da vida social. Ele possui funções educativas, recreativas, integradoras e reguladoras. Por meio das tradições coletivas, os indivíduos desenvolvem sentimentos de pertencimento e reconhecem referências comuns. Uma festa popular, uma dança tradicional ou uma narrativa transmitida oralmente podem reforçar vínculos entre os integrantes de uma comunidade, preservar experiências compartilhadas e oferecer modelos de comportamento.

Folcore

Entretanto, Fernandes não considerava o folclore uma realidade imóvel. Ao contrário, suas manifestações são afetadas pelas mudanças econômicas, urbanas e sociais. O crescimento das cidades, a industrialização, a expansão dos meios de comunicação e a alteração das formas de convivência interferem diretamente na continuidade das tradições populares. Algumas práticas desaparecem, outras perdem parte de suas funções originais e muitas são adaptadas às novas condições de vida.

Essa interpretação aparece de maneira particularmente clara em seus estudos sobre São Paulo. A rápida urbanização da cidade modificou os espaços onde aconteciam as brincadeiras, festas e relações comunitárias. As ruas, os bairros e os grupos de vizinhança passaram por profundas transformações. Consequentemente, determinadas manifestações folclóricas deixaram de encontrar as condições sociais necessárias para sua reprodução. Isso não significa, porém, que o folclore tenha sido simplesmente eliminado pela modernização. Em vários casos, ele foi reorganizado, adquiriu novos significados ou permaneceu presente em grupos específicos.

Florestan Fernandes

Por conseguinte, para Fernandes, tradição e mudança não são fenômenos necessariamente opostos. O folclore pode conservar elementos do passado e, ao mesmo tempo, responder às necessidades do presente. Sua permanência depende da capacidade de continuar cumprindo alguma função social. Quando uma tradição já não encontra correspondência nas relações concretas de uma comunidade, tende a enfraquecer. Quando consegue se adaptar, pode permanecer viva, ainda que modificada.

O folclore, à luz do pensamento de Florestan Fernandes
O folclore, à luz do pensamento de Florestan Fernandes

Outro aspecto importante de seu pensamento jaz na crítica à visão romântica do folclore. Muitas vezes, a cultura popular é apresentada como algo puro, espontâneo e isolado das demais dimensões da sociedade. Florestan rejeita essa interpretação, pois entende que as manifestações culturais estão inseridas em relações sociais marcadas por diferenças de classe, raça, geração e poder. O folclore não existe fora da história: ele é produzido por grupos concretos, em condições determinadas.

Outrossim, ao analisar a cultura popular, o sociólogo contribuiu para questionar a separação rígida entre cultura erudita e cultura popular. Essa divisão frequentemente estabelece uma hierarquia na qual os conhecimentos das elites são considerados superiores, enquanto as práticas populares são vistas como atrasadas ou inferiores. O estudo científico do folclore demonstra, porém, que essas manifestações possuem lógica própria, complexidade e relevância para a organização da vida coletiva.

Contudo, no contexto brasileiro, essa reflexão assume especial importância. A formação cultural do país resulta do encontro, muitas vezes violento e desigual, entre povos indígenas, africanos e europeus. As manifestações folclóricas carregam marcas desse processo histórico e revelam tanto formas de dominação quanto estratégias de resistência e preservação cultural. Festas, crenças, ritmos, narrativas e práticas comunitárias podem registrar experiências que nem sempre aparecem nos documentos oficiais ou nas interpretações produzidas pelos grupos dominantes.

Destarte, estudar o folclore à luz do pensamento de Fernandes significa, observar mais do que a aparência de uma tradição. É necessário investigar quem participa dela, como é transmitida, quais valores comunica, que funções desempenha e de que maneira reage às mudanças sociais. O pesquisador deve tratar seus participantes como sujeitos sociais, e não como simples portadores passivos de costumes antigos.

No entanto, sociedade coeva, marcada pelas tecnologias digitais e pela circulação acelerada de informações, essa interpretação continua atual. As tradições populares passam a ocupar novos espaços, como redes sociais, festivais, escolas e projetos culturais. Ao mesmo tempo que podem alcançar públicos maiores, também estão sujeitas à comercialização e à perda de seus significados comunitários. A abordagem de Florestan ajuda a compreender essas contradições, pois considera a cultura um processo vivo e permanentemente relacionado às condições sociais.

Em epítome, conclui-se que, para Florestan Fernandes, o folclore é uma dimensão dinâmica da sociedade. Ele preserva memórias, transmite valores, promove a socialização e fortalece identidades coletivas, mas também se transforma conforme se alteram as relações sociais. Sua importância não está apenas em representar o passado, mas em revelar como diferentes grupos constroem sentidos para sua experiência no presente.

Por final, compreender o folclore dessa maneira é reconhecer que a cultura popular constitui uma fonte legítima de conhecimento sobre a sociedade brasileira e sobre as mudanças que atravessam sua história.

Adelcio Machado dos Santos
Prof. Dr. Adelcio Machado dos Santos Jornalista

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