09/08/2026
Irracionalismo à luz do pensamento de Lukács
Para Lukács, o irracionalismo não pode ser explicado somente por divergências internas à filosofia/Foto: IA

Irracionalismo à luz do pensamento de Lukács

Bom Dia SC – Em primeiro lugar, o irracionalismo ocupa uma posição central na crítica filosófica desenvolvida por Georg Lukács. Em A destruição da razão, publicada originalmente em 1954, o filósofo examina o desenvolvimento do pensamento irracionalista, sobretudo na Alemanha, relacionando-o às transformações políticas e sociais ocorridas entre o século XIX e a ascensão do nazismo. Sua análise procura demonstrar que as ideias filosóficas não surgem de forma isolada, pois estão vinculadas às condições históricas e às disputas existentes na sociedade.

Destarte, à luz desta hermenêutica o irracionalismo caracteriza-se pela negação da possibilidade de conhecimento racional da realidade. Em suas diferentes manifestações, ele desvaloriza a razão, a ciência, a objetividade e a compreensão histórica, privilegiando a intuição, o mito, a vontade, o instinto ou a experiência subjetiva. Lukács não considera toda crítica à razão como irracionalista. Sua oposição dirige-se principalmente às filosofias que abandonam a análise concreta da realidade e apresentam suas contradições como incompreensíveis ou impossíveis de serem superadas.

Por cosneguinte, estudar o irracionalismo à luz do pensamento de Lukács significa compreender suas bases sociais e sua função ideológica. Mais do que identificar determinadas ideias filosóficas, o autor procura revelar como essas ideias podem contribuir para conservar uma ordem social marcada pela exploração, pela desigualdade e pela alienação.

Para Lukács, o irracionalismo não pode ser explicado somente por divergências internas à filosofia. Seu aparecimento e sua expansão estão relacionados às crises da sociedade burguesa. Durante o período de ascensão da burguesia, a razão desempenhou uma função progressista, pois foi utilizada no combate ao absolutismo, aos privilégios feudais e às explicações religiosas da organização social. O Iluminismo, nesse sentido, representou a confiança na capacidade humana de conhecer e transformar o mundo.

Entretanto, após consolidar-se como classe dominante, a burguesia passou a enfrentar as contradições produzidas pelo próprio capitalismo. A luta entre capital e trabalho, o crescimento do movimento operário e as crises econômicas colocaram em questão a universalidade dos princípios burgueses. A razão, antes mobilizada contra a sociedade feudal, poderia agora ser empregada para compreender criticamente a exploração capitalista.

De outro vértice, à luz do magistério da lavra Lukács, essa transformação histórica favoreceu uma decadência ideológica da burguesia. Diante das contradições sociais, parte da filosofia afastou-se da investigação racional da totalidade e passou a enfatizar elementos subjetivos, intuitivos ou biológicos. O irracionalismo teria, uma função ideológica: desviar a atenção das causas concretas dos problemas sociais de consequência. iais e impedir que eles fossem compreendidos como resultados de relações históricas passíveis de transformação.

Contudo, essa perspectiva não significa afirmar que os filósofos irracionalistas tenham atuado conscientemente em defesa de determinadas classes sociais. Lukács distingue as intenções pessoais dos autores das consequências objetivas de suas ideias. Um pensamento pode assumir uma função conservadora mesmo quando seu formulador se considera crítico da sociedade existente. O aspecto decisivo é verificar como determinada filosofia interpreta a realidade e quais possibilidades de ação histórica ela reconhece ou recusa.

A crítica de Lukács ao irracionalismo fundamenta-se na defesa da razão dialética

Outrossim, a crítica de Lukács ao irracionalismo fundamenta-se na defesa da razão dialética. Diferentemente de uma racionalidade rígida e formal, a dialética compreende a realidade como um processo histórico constituído por contradições, mudanças e relações. Conhecer racionalmente um fenômeno não significa reduzi-lo a esquemas abstratos, mas situá-lo dentro da totalidade social da qual faz parte. A categoria da totalidade é fundamental no pensamento lukacsiano. Os acontecimentos econômicos, políticos, culturais e filosóficos não devem ser analisados como elementos independentes. Eles integram uma realidade histórica organizada por relações sociais concretas. O irracionalismo, ao fragmentar a experiência e negar a possibilidade de compreender essa totalidade, termina por ocultar as conexões entre os problemas individuais e as estruturas sociais.

Por outro lado, aa sociedade capitalista, as relações entre os indivíduos apresentam-se como relações entre coisas. Esse fenômeno, denominado reificação, faz com que as instituições e os processos econômicos pareçam forças naturais, autônomas e incontroláveis. A realidade social, embora produzida pelos seres humanos, passa a ser percebida como algo estranho e inevitável. O irracionalismo reforça essa aparência ao considerar o mundo essencialmente caótico, absurdo ou inacessível ao conhecimento.

A razão dialética, por sua vez, permite compreender que as estruturas sociais possuem uma origem histórica. Se foram criadas pela ação humana, elas também podem ser modificadas. A defesa da racionalidade em Lukács está, portanto, diretamente relacionada à possibilidade de emancipação. Conhecer a realidade significa identificar suas determinações objetivas, suas contradições internas e as possibilidades concretas de transformação.

Contudo, a atualidade dessa crítica pode ser percebida em situações nas quais informações científicas são substituídas por opiniões sem fundamento, problemas sociais são explicados por preconceitos e discursos políticos apelam ao medo em lugar da argumentação. Embora seja necessário considerar as diferenças entre o período estudado por Lukács e o presente, sua reflexão continua relevante para analisar a circulação de discursos que negam fatos objetivos e transformam conflitos históricos em antagonismos irracionais.

A análise do filósofo, demonstra que o irracionalismo não deve ser compreendido apenas como uma preferência individual por elementos intuitivos ou subjetivos. Trata-se de um fenômeno histórico relacionado às contradições da sociedade capitalista e à necessidade ideológica de impedir sua compreensão crítica. Ao negar a possibilidade de conhecimento racional da realidade, o irracionalismo contribui para apresentar as relações sociais como naturais, imutáveis ou incompreensíveis.

Lukács contrapõe a essas tendências a razão dialética, capaz de apreender a sociedade como totalidade histórica. Sua defesa da razão não corresponde a uma confiança ingênua no progresso automático, mas ao reconhecimento de que as contradições sociais podem ser conhecidas e enfrentadas pela ação humana consciente.

Destarte, a crítica ao irracionalismo possui uma dimensão teórica e política. No plano teórico, defende a objetividade do conhecimento e a investigação das determinações históricas dos fenômenos. No plano político, afirma a possibilidade de transformação da sociedade.

Por final, à luz do pensamento de Lukács, preservar a razão significa resistir às formas de pensamento que ocultam as causas da desigualdade e limitam a capacidade humana de construir alternativas históricas.

Adelcio Machado dos Santos
Prof. Dr. Adelcio Machado dos Santos
Jornalista (MT/SC 4155)

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