Bom Dia SC – A esperança pode ser compreendida tanto sob a ótica da paciência quanto sob a perspectiva da mediocridade, dependendo de como o comportamento da espera se conduz. Paciência não é passividade, mas a capacidade de suportar as adversidades presentes sem perder de vista um bem futuro que, por inúmeras vezes, é difícil, mas possível de ser alcançado.
Quem tem paciência espera o tempo das coisas sabendo que a tolerância lhe trará um benefício. A paciência é a âncora que impede o desespero e dá estrutura emocional para a persistência, a longo prazo, na certeza de que chegará um momento de vitória, de celebração, de conquista ou da alegria.
Por outro lado, a esperança pode ser entendida como a virtude da mediocridade. Os filósofos Friedrich Nietzsche, Arthur Schopenhauer e os estoicos, frequentemente, olhavam para a esperança com forte ceticismo, associando-a à passividade e à fuga da realidade. Sob este prisma, a esperança pode se tornar uma muleta para quem não tem a coragem ou a força de mudar sua própria realidade. Torna-se o “refúgio dos fracos” ou uma desculpa para a inércia.
Esperar que o futuro melhore por si só, por intervenção do governo ou de outros, sem que o indivíduo assuma o controle ou a responsabilidade pelo seu destino, é uma atitude medíocre. Nietzsche, por exemplo, apontava que, na mitologia grega, a esperança permaneceu no fundo da caixa de Pandora por ser, na verdade, o pior dos males, isto é, aquele que prolonga o tormento dos homens ao criar falsas ilusões.
Frequentemente falamos que somos um povo esperançoso por dias melhores, mas mantemos quem nos dirige em troca de um pacote de esperanças e muitos por migalhas de favores à custa do próprio trabalho do povo. Quando a expectativa por dias melhores é alimentada, artificialmente, pelo poder público, ela frequentemente se torna uma ferramenta para perpetuar a dependência e a passividade.
Quem detém o poder, frequentemente, transforma direitos básicos em favores ou promessas futuras. Ao manter a população em uma condição de vulnerabilidade constante, o governante garante que pequenos auxílios ou promessas de melhoria (“migalhas”) sejam recebidos com gratidão e não como uma obrigação do Estado. A esperança passa a ser comercializada. Vende-se a ideia de que a mudança está sempre no próximo mandato, no próximo plano ou na próxima eleição, adiando a cobrança por resultados reais no presente.
É triste, porque o cidadão financia o sistema que o mantém refém, recebendo de volta apenas uma fração do valor que produziu, muitas vezes sob a roupagem de “benevolência”. Nesse contexto coletivo, a esperança atua como o anestésico porque impede à indignação ou a uma reação ativa. Em vez de revolta ou exigência por reformas estruturais, as pessoas são estimuladas a adotar uma postura de resignação otimista: alguém resolverá nosso problema (o governo ou os políticos, quando não Deus).
A resiliência, que deveria ser uma virtude temporária para superar uma crise, transforma a esperança num estado permanente de sobrevivência da população. Quando a cultura de um povo é moldada para apenas esperar, a política se transforma em uma gestão de expectativas, na qual manter a promessa viva é mais vantajoso para os governantes do que resolver o problema definitivamente.
O que ocorre entre nós? O político ou governante utiliza recursos que não são dele, mas do Estado, para conceder benefícios pontuais a indivíduos ou grupos que estão em situação de vulnerabilidade, anunciando que é um favor, uma benemerência ou ajuda.
Mais distante de nossos dias, havia a troca do voto por um par de botas ou um saco de alimentos. Hoje, o mecanismo se modernizou por meio de emendas parlamentares direcionadas, empregos públicos temporários e promessas de infraestrutura básica que deveriam ser direitos, mas são entregues como benefício. A população muitas vezes não percebe o peso real dos impostos embutidos no consumo diário (comida, combustível, energia).
Como a arrecadação de tributos é indireta e invisível para muitos, cria-se a falsa percepção de que os serviços públicos ou auxílios prestados pelo governo são “gratuitos” ou um “presente” dos governantes, quando na verdade são financiados pelo suor do próprio trabalhador.
A escola econômica da Teoria da Escolha Pública (Public Choice) argumenta que os agentes políticos agem por interesse próprio, buscando maximizar seu poder e reeleição, e não pelo “bem comum”. Para se manterem no topo, os governantes criam uma estrutura burocrática pesada que extrai riqueza da base produtiva (o povo que trabalha).
A Esperança Vendida
Parte dessa riqueza sustenta os privilégios da própria máquina estatal, e outra parte é distribuída estrategicamente em épocas eleitorais para garantir a permanência desse mesmo grupo no poder. A esperança vendida é o combustível para que o pagador de impostos continue aceitando a extração.
Em termos práticos, o que mantém esse sistema funcionando é um cálculo de sobrevivência: para quem está na escassez, a “migalha” de hoje resolve uma necessidade imediata, impedindo a visão de longo prazo de que o sistema político está, na verdade, encarecendo a vida e limitando a independência econômica desse cidadão.
Nesse contexto de clientelismo e controle político, a educação deixa de ser uma ferramenta de emancipação e passa a ser tratada de duas formas estratégicas: como um mecanismo de alienação e como uma moeda de troca. A escola se reduz numa agência assistencialista ao invés de ser um lugar de aprendizagem efetiva de base científica e com valorização do mérito. Para que o “pacote de esperanças” e as “migalhas” continuem funcionando como moeda de troca, a população precisa continuar dependente. Os professores, muitos deles bem-intencionados, mas ingênuos, são instrumentos dessa agenda.
A educação básica, de baixa qualidade, atua diretamente nessa engrenagem: uma escola pública não ensina o cidadão a compreender o funcionamento do Estado, a ler criticamente um orçamento público ou a entender o conceito de ilusão fiscal (o fato de que ele paga pelo próprio serviço através dos impostos). Portanto, sem habilidades técnicas, científicas e analíticas sólidas, o indivíduo tem menos ferramentas para ascender economicamente por conta própria no mercado de trabalho, tornando-se mais vulnerável e dependente de auxílios.
Não raramente, cargos de diretores de escola, coordenadores e até professores temporários são preenchidos por indicações de vereadores e deputados. O emprego na escola vira o “favor” que garante o voto da família do funcionário. A construção de uma creche, a reforma de uma quadra, um parquinho ou a chegada de um ônibus escolar são deliberadamente atrasadas ou cronometradas para coincidir com o ano eleitoral, sendo apresentadas como uma “conquista pessoal” do político, e não como um dever constitucional cumprido com o dinheiro dos impostos do próprio povo.
Sob a ótica da eficácia do aprendizado, observei de perto e confirmo o que os críticos da atual metodologia de alfabetização e de ensino, sob as ideias construtivistas, afirmam: o sistema educacional foca excessivamente em debates teóricos e ideológicos abstratos abandonando o pragmatismo científico. O aluno progride na escola sem dominar o raciocínio lógico-matemático elementar, a interpretação de texto complexa e a alfabetização financeira básica. Não há premiação ao mérito, a disciplina e o esforço são considerados arrogância. A escola perdeu a disciplina necessária e se arrancou do professor a autoridade.
Em consequência, o cidadão sai da escola formal sem o instrumental técnico necessário para questionar a produtividade do gasto público ou para competir em pé de igualdade na geração de riqueza de alto valor, mantendo a base da pirâmide social achatada e dócil às promessas eleitoreiras. O currículo e a narrativa escolar muitas vezes romantizam o papel do Estado, ensinando que os direitos e os serviços públicos são concessões generosas dos governantes.
Raras vezes se ensina o funcionamento da livre iniciativa, o custo da burocracia ou o impacto que a pesada carga tributária estatal tem sobre o salário do trabalhador. Ao crescer sob a mentalidade de que o Estado é o único agente capaz de gerar bem-estar, o estudante é moldado para se tornar um adulto que espera a solução de seus problemas através da via política, perpetuando o mercado das promessas e, portanto, da esperança.
Infelizmente, rumamos para o colapso. É preciso despertar para uma nova visão em busca da construção da solidariedade, da ciência, da visão empreendedora e da educação para a construção de soluções a partir de cada cidadão, de cada local e de cada região.
Joaçaba, vésperas de esperança para um Brasil novo, 23 de outubro de 2026.
Aristides Cimadon
Professor e Advogado





















