Bom Dia SC – A MPB de hoje – ou o que dela restou – tem muito a aprender com a herança deixada por Noel de Medeiros Rosa (1910-1937). O compositor carioca era uma das paixões do cineasta joaçabense Rogério Sganzerla, que filmou em 1981 o documentário musical “Noel por Noel” e, dez anos mais tarde, “Isto é Noel”.
No filme “Mr. Sganzerla – Signos da Luz” (Joel Pizzini, 2012) entre imagens de Joaçaba e do programa “50 Anos Sem Noel Rosa” que eu fiz com o Rogério na antiga Rádio Transoeste FM em maio de 1987, ele ressalta a importância de “Noel de Medeiros Rosa, o Poeta da Vila, filósofo do samba, criador incomparável de uma nova língua ou linguagem em formação. Com suas bossas e breques, como é grande esse pequenino Noel…”

“Quem dá mais por um samba feito nas regras da arte, sem introdução e sem segunda parte/ Quem é que dá mais de um conto de réis? Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três. Quanto é que vai ganhar o leiloeiro, que é também brasileiro, e em três lotes vendeu o Brasil inteiro?” (Quem dá mais? 1932).
Em 1911, aos dez meses de idade, Noel Rosa venceu o Concurso Nestlé de Robustez Infantil – mas, assim como grandes poetas românticos e míticos astros, morreu com 26 anos! Em “Noel Rosa – Uma Biografia Musical”, João Máximo e Carlos Didier descrevem um personagem fascinante: sentimental, ferino e ao mesmo tempo lírico, características de uma pessoa brilhante, embora complexado pela deformação no queixo, causada por um fórceps mal conduzido em seu parto, que resultou em fratura e afundamento do maxilar direito, provocando paralisia parcial na face.
“Agora vou mudar minha conduta eu vou pra luta pois eu quero me aprumar/ Vou tratar você com a força bruta pra poder me reabilitar/ pois esta vida não está sopa e eu pergunto: Com que roupa? Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?”
As duas primeiras músicas que Noel Rosa gravou em sua curta carreira foram “Com que roupa?” e “Malandro medroso”, em disco Parlophon nº 13245 de 1930. Essa verdadeira raridade pode ser ouvida por qualquer um que aprecie a verdadeira MPB em “Noel Rosa Pela Primeira Vez”, coleção de 14 CDs idealizada e produzida por Omar Jubran. Lançada em 2000 pela Gravadora Galeão/Velas apresenta, em ordem cronológica, todas as primeiras gravações das músicas que Noel fez em seus breves seis anos de atividade. Ali é possível observar como ele começa seguindo a moda dos temas caipiras, depois descobre os negros do morro, como Ismael Silva e Cartola, de quem se torna parceiro. Com isso aprimora seu samba e com o tempo o torna mais elaborado.
“Eu devo, não quero negar, mas te pagarei como puder… se o jogo permitir, se a polícia consentir e se Deus quiser” (Malandro Medroso, 1930).
Eram outros tempos, o samba e a batucada vinham do morro. Noel, moço branco de classe média, pouco tinha a ver com o culto à malandragem, mas conhecia na intimidade o gosto e a psicologia das classes mais humildes e não teve receio de misturar-se a sambistas semianalfabetos. E ao invés de “cantar bonito” preferiu cantar como cantaria o homem do povo.
“Batuque é um privilégio, ninguém aprende samba no Colégio… quem suportar uma paixão, sentirá que o samba então nasce do coração.” (Feitio de Oração, 1933, parceria com Vadico).

Noel Rosa campôs 259 músicas
Noel compôs 259 músicas em sete anos. todas muito boas, algumas obras-primas. Muitas fizeram sucesso, animaram carnavais, tocaram incessantemente no rádio. Pai do moderno samba urbano, elevou as letras de samba ao patamar de poesia – poesia satírica, amorosa, social – influenciou decisivamente Chico Buarque e muitos outros.
Sua carreira meteórica aconteceu entre bares, bordéis e as aulas do curso de medicina – que largou no 3º ano, Companheiro de malandros e figuras da noite carioca, franzino, mulherengo e boêmio, esse gênio nascido na Vila Isabel gostava de compor com parceiros, especialmente Ismael Silva (“Para Me Livrar do Mal”) e Vadico (“Conversa de Botequim”, “Feitio de Oração”). Mas também compunha bem sozinho (“Fita Amarela”, “Palpite Infeliz”, “Último Desejo”), na calada da noite, o cigarro pendido na boca. A combinação de tuberculose e boemia foi demais para seus pulmões fracos.
“Quando eu morrer não quero choro nem vela, quero uma fita amarela, gravada com o nome dela” (Fita Amarela, 1932).
Naquele tempo os compositores populares lançavam “músicas de meio de ano”, assim conhecidas as que não se destinavam ao carnaval. Noel foi craque nos dois estilos, embora o sucesso custasse a acontecer e passou dificuldades financeiras, aliadas aos problemas de saúde.
“Um pierrô apaixonado, que vivia só cantando, por causa de uma colombina acabou chorando, acabou chorando” (Pierrô apaixonado, 1935, parceria com Heitor dos Prazeres).
“O eixo da obra de Noel é uma figura ambígua o tempo todo, que diz sem dizer, brinca de dizer. Ele apropriou a ginga do malandro, no sentido filosófico, e criou o personagem de um sambista frágil e vagabundo, sem forças, dinheiro e reconhecimento que, por outro lado, é capaz de criticar, colocar o dedo na ferida e dizer que não está interessado nos valores dominantes do trabalho, da moral e outros valores da sociedade”, concluiu Mayra Pinto, autora do livro “Noel Rosa o humor na canção”.
“A filosofia hoje me auxilia a viver indiferente assim/ Nesta prontidão sem fim, vou fingindo que sou rico, pra ninguém zombar de mim!” (Filosofia, 1933).
Mayra completa a reflexão: “Noel Rosa trabalha o tempo inteiro com a ambiguidade, que talvez seja a marca mais profunda de sua obra e que permite disfarçar a crítica, dizendo de uma forma humorada aquilo que em um discurso sério não poderia ser dito. Há um preconceito de achar que somente a cultura erudita é que pensa sobre o mundo e a cultura popular não. E a obra do Noel Rosa, que era um compositor culto, está aí para comprovar que a cultura popular, sobretudo a canção, também é um lugar reconhecido de reflexão”, comparou. A grandeza de Noel repousa na genialidade de sua poesia, nas crônicas sobre o Rio e seus personagens, na dicotomia de sua temática: a pobreza e a malandragem, a mentira e o sofrimento, o amor e o desamor; na lucidez com que entendeu seu tempo e lugar, na sabedoria com que transmitiu às futuras gerações o que isso tem de mais perene. O primeiro poeta moderno do cancioneiro tupiniquim.”
“A estrela d’alva no céu desponta e a lua anda tonta com tamanho esplendor/ E as pastorinhas pra consolo da lua vão cantando na rua lindos versos de amor (As Pastorinhas, 1934, parceria com Braguinha).
Em 1932 Noel excursionou pelo Sul – esteve em Porto Alegre, Florianópolis e Curitiba com Francisco Alves e Mário Reis. Teve mais de 50 parceiros, mas fez muita coisa boa sozinho. Sua obra foi gravada por grandes nomes de nossa música, de Aracy de Almeida a Maria Bethânia, de Nelson Gonçalves a Chico Buarque, de Mario Reis (precursor da bossa nova) a Tom Jobim (criador da bossa nova).

“Pra que ligar a quem não sabe aonde tem o seu nariz? Quem é você que não sabe o que diz? (Palpite Infeliz, 1935).
Mesmo casado com Lindaura, de apenas treze anos, continuou na boemia e se apaixonou pela dançarina Cecy, Juracy Correia de Araújo, que conheceu num cabaré da Lapa, e a ela dedicou algumas de suas melhores canções, a derradeira das quais o seu testamento musical, “Último Desejo”.
“Nosso amor que eu não esqueço, e que teve o seu começo numa festa de são João, morre hoje sem foguete, sem retrato e sem bilhete, sem luar, sem violão” (Último Desejo, 1937, parceria com Vadico).
Noel era mestre no uso da ironia e escrevia as letras de suas músicas como quem está conversando. Exemplo maior é essa obra-prima chamada “Conversa de Botequim”, de 1935, que o consagrou como o grande cronista da vida carioca.
“Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa uma boa média que não seja requentada, um pão bem quente com manteiga à beça, um guardanapo e um copo d’água bem gelada/ Feche a porta da direita com muito cuidado, que não estou disposto a ficar exposto ao sol; vá perguntar ao seu freguês do lado qual foi o resultado do futebol.”
Noel Rosa morreu cedo demais, mas teve tempo suficiente para deixar uma obra que não envelheceu com o tempo. Seus sambas continuam atuais por falar de coisas que permanecem humanas: o amor e suas desilusões, pobreza, esperteza, boemia, desigualdade, política, costumes e, sobretudo, a capacidade de rir de nós mesmos. Com palavras simples, aparentemente despretensiosas, Noel fez da canção popular um espaço de inteligência, crítica e poesia. Talvez seja justamente aí que esteja sua maior lição: não é preciso abandonar a simplicidade para alcançar a grandeza.
“Eu sei tudo o que faço, sei por onde passo, paixão não me aniquila. Mas tenho que dizer: modéstia à parte, meus senhores, eu sou da Vila! (Feitiço da Vila, 1934, parceria com “Vadico”, Oswaldo Gogliano).
Os velhos sambas de Noel Rosa continuam a desafiar a música brasileira. Sua obra mostra que popular não é sinônimo de superficial, que humor pode carregar pensamento e que uma boa canção pode ser, ao mesmo tempo, espelho de uma época e retrato permanente do ser humano. Quase nove décadas depois de sua morte, aquele “pequenino Noel”, como definiu Sganzerla, continua enorme. E talvez a melhor maneira de homenageá-lo seja fazer o que ele sempre soube fazer tão bem: olhar para o Brasil, para suas contradições e personagens, transformar tudo em música e perguntar, com uma ironia que ainda nos desconcerta: quem dá mais?
Ouça uma dúzia de ”rosas” do Noel
Noel Rosa – Quem dá mais? (Leilão do Brasil)
Noel Rosa – Com que roupa?
Noel Rosa – Malandro medroso
Aracy De Almeida – Feitio de Oração
Joel e Gaúcho – Pierrot Apaixonado
Paulinho da Viola – Filosofia
Silvio Caldas – As pastorinhas
João Gilberto – Palpite Infeliz (Noel Rosa)
Angela Maria e Nelson Gonçalves – Último Desejo
Trio Esperança – Conversa de Botequim
Elizeth Cardoso e Jacob do Bandolim – Feitiço da Vila
Texto: Antonio Carlos “Bolinha” Pereira





















