Bom Dia SC – Inicialmente, o Brasil perdeu, no dia 6 de agosto de 2026, uma de suas vozes mais firmes na defesa da paz, da soberania dos povos e da construção de uma sociedade mais justa. Aos 73 anos, faleceu em Campinas Lejeune Mirhan, vítima de uma parada cardíaca. Ele se encontrava internado desde julho, tratando um câncer. Sua partida encerra uma trajetória pessoal marcada pela coerência, pelo estudo permanente e pela dedicação integral às causas populares.
De outro vértice, nascido em Corumbá, Mato Grosso do Sul, Lejeune Mato Grosso Xavier de Carvalho iniciou sua militância ainda jovem, durante os anos de resistência à ditadura militar. Na década de 1970, participou ativamente do movimento estudantil na Pontifícia Universidade Católica de Campinas, instituição em que se graduou em Ciências Sociais e posteriormente realizou estudos de mestrado em Filosofia. Desde aquele período, o conhecimento nunca foi, para ele, um exercício isolado da realidade. Estudar significava compreender o mundo para poder transformá-lo.
Destarte, Lejeune desenvolveu uma longa e fecunda carreira no ensino. Durante duas décadas, lecionou na Universidade Metodista de Piracicaba, ministrando disciplinas como Sociologia, Ciência Política, Métodos e Técnicas de Pesquisa e Sociologia da Comunicação. Na condição de professor, contribuiu para a formação de diferentes gerações de estudantes, sempre procurando aproximar a reflexão acadêmica das grandes questões políticas, sociais e econômicas de seu tempo. Sua capacidade de explicar assuntos complexos com clareza fez dele também um educador popular, cuja atuação ultrapassava amplamente os limites da sala de aula.
Outrossim, a sua vida esteve igualmente ligada à organização e à valorização profissional dos sociólogos. Presidiu o Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo e a Federação Nacional dos Sociólogos, além de ter exercido a vice-presidência da Confederação Nacional das Profissões Liberais. Em 2007, participou da fundação da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil. No movimento sindical, destacou-se não somente como dirigente, mas como formador dedicado, capaz de relacionar as reivindicações imediatas dos trabalhadores com a necessidade de mudanças estruturais na sociedade brasileira.
Lejeune dedicou sua vida à luta democrática
Outrossim, Lejeune dedicou décadas de sua vida à luta democrática, à organização dos trabalhadores e ao socialismo. Atuou na Secretaria Sindical Nacional do PCdoB e integrou diferentes espaços de direção e formação. Sua militância era movida por convicções profundas, mas também por uma disposição permanente para o diálogo. Não entendia a política como atividade circunstancial ou instrumento de promoção pessoal. Para ele, a militância representava um compromisso cotidiano, assumido com coragem, disciplina e solidariedade.
Entre as dimensões mais marcantes de sua trajetória encontra-se a defesa da causa palestina. A partir de 1982, Lejeune passou a dedicar parte importante de seus estudos e de sua militância à história do Oriente Médio e à luta do povo palestino por liberdade, autodeterminação e soberania. Naquele ano, diante do massacre de Sabra e Chatila, esteve entre os idealizadores do Comitê de Solidariedade ao Povo Palestino, iniciativa que mobilizou centenas de pessoas e se tornou uma referência do movimento de solidariedade internacional no Brasil.
No entanto, aua ligação com o mundo árabe também possuía raízes familiares. Descendente de imigrantes sírios estabelecidos em Corumbá no início do século XX, buscou preservar e valorizar essa herança cultural. No final dos anos 2000, adotou o nome Lejeune Mirhan, reforçando sua identificação com os antepassados e sua aproximação definitiva com a história e a cultura árabes. Participou de delegações e missões de solidariedade à Palestina e à Síria, colaborou com entidades dedicadas à causa palestina e se transformou em uma das principais referências brasileiras no estudo das questões árabes e do Oriente Médio.
Contudo, Lejeune não abordava a Palestina como tema distante ou meramente acadêmico. Via na resistência palestina uma expressão concreta da luta dos povos contra a ocupação, o colonialismo e a negação de direitos fundamentais. Em suas palestras, aulas, entrevistas, livros e artigos, procurava desmontar interpretações simplificadoras que apresentavam o conflito como resultado exclusivo de diferenças religiosas. Insistia em suas dimensões históricas, territoriais, políticas e geopolíticas, defendendo sempre o direito do povo palestino à existência, à liberdade e à constituição de seu Estado soberano.
Destarte, o seu falecimento representa uma perda para seus familiares, amigos, alunos, companheiros de militância e para todos aqueles que encontraram em suas palavras uma fonte de conhecimento e coragem. Representa também uma perda para o movimento sindical brasileiro, para a sociologia, para o pensamento crítico e para a solidariedade ao povo palestino. Contudo, a dimensão de sua obra e de seu exemplo impede que sua partida seja compreendida apenas como encerramento.
Todavia, Lejeune Mirhan permanece vivo nas gerações que ajudou a formar, nos livros que escreveu, nas organizações que contribuiu para construir e nas lutas às quais dedicou sua existência. Permanece em cada manifestação de solidariedade à Palestina, em cada trabalhador que compreende a força da organização coletiva e em cada jovem que decide estudar a realidade para transformá-la.
Em epítome, o melhor tributo à sua memória será dar continuidade às causas pelas quais lutou. Defender a democracia, os direitos dos trabalhadores, a soberania nacional, a paz, o socialismo e a liberdade do povo palestino será também preservar o legado de um intelectual que jamais separou suas ideias de sua prática.

Jornalista (MT/SC 4155)





















