Dados do Mapa Nacional da Violência de Gênero revelam que menores de idade estão entre as principais vítimas no país; especialistas defendem atuação integrada entre escola, saúde, assistência social e Justiça
Bom Dia SC – Crianças e adolescentes formam hoje o segundo grupo etário mais afetado pela violência sexual no Brasil, atrás apenas da faixa entre 18 e 29 anos. Os dados são do Observatório da Mulher Contra a Violência, divulgados por meio do Mapa Nacional da Violência de Gênero, iniciativa desenvolvida em parceria com o Instituto Natura e a Gênero e Número.
O levantamento reforça a importância do 18 de maio, Dia Nacional do Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, data que mobiliza campanhas de conscientização e amplia a pressão por políticas públicas mais eficazes de prevenção e proteção.
Quase 50 crianças e adolescentes sofrem estupro por dia no país
Segundo o Mapa Nacional da Violência de Gênero, o Brasil registrou, no primeiro semestre de 2025, uma média de 187 estupros por dia. Desse total, 47 vítimas tinham entre zero e 17 anos, enquanto 58 tinham entre 18 e 29 anos.
Os dados também mostram que:
- 85% das vítimas de violência sexual são mulheres;
- quatro em cada dez casos acontecem dentro da própria residência da vítima;
- a maioria das agressões ocorre em ambientes de convivência familiar ou próxima.
As informações foram obtidas a partir do cruzamento entre dados do Sinesp Validador de Dados Estatísticos (VDE) e da Base Nacional de Boletins de Ocorrência (BNBO), ambos vinculados ao Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Apenas no primeiro trimestre de 2024, foram registradas 2.776 vítimas de violência sexual entre crianças e adolescentes. No total geral, sem divisão por idade, o país contabilizou 8.662 casos formalizados por boletim de ocorrência.
Especialistas alertam para subnotificação e dificuldade de denúncia
Para Beatriz Accioly, antropóloga e líder de Políticas Públicas pelo Fim da Violência contra Mulheres no Instituto Natura, o enfrentamento da violência sexual infantil exige uma atuação preventiva e articulada entre diferentes áreas do poder público.
“Muitas vítimas não conseguem nomear a violência, não têm segurança para falar ou convivem com o próprio agressor. Por isso, a política pública precisa chegar antes e melhor”, afirma.
Segundo ela, escolas, unidades de saúde, assistência social, segurança pública e sistema de Justiça precisam atuar de forma integrada, com profissionais capacitados para reconhecer sinais de abuso e acolher vítimas sem revitimização.
A diretora-executiva da Gênero e Número, Vitória Régia da Silva, destaca que a violência sexual segue fortemente subnotificada no Brasil.
“O país ainda enfrenta desafios relacionados à qualidade, integração e padronização das bases de dados públicas, que permanecem fragmentadas e descentralizadas”, explica.
Já Maria Teresa Prado, coordenadora do Observatório da Mulher contra a Violência do Senado Federal, afirma que o objetivo do Mapa é justamente integrar diferentes fontes de informação para ampliar a compreensão sobre a violência de gênero no país.

Meninas negras são as principais vítimas da violência sexual
Dados históricos do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, mostram um cenário ainda mais preocupante. Entre 2011 e 2024, uma média de 64 meninas por dia sofreu violência sexual no Brasil.
Ao longo do período:
- mais de 308 mil meninas de até 17 anos foram vítimas de violência sexual;
- somente em 2024, foram registrados 45.435 casos;
- mais da metade das vítimas eram meninas negras.
Em 2024, meninas negras representaram 52,3% das notificações registradas pelo sistema de saúde.
Violência dentro de casa exige nova estratégia de proteção
Os dados também revelam que cerca de um terço dos casos de violência sexual contra mulheres foi cometido por familiares das vítimas. Para especialistas, isso muda completamente a lógica de atendimento e denúncia.
“Uma criança não vai sozinha à delegacia. A linha de frente para identificar a violência está na Educação e na Saúde”, afirma Beatriz Accioly.
Ela ressalta que professores e profissionais das Unidades Básicas de Saúde precisam ter protocolos claros de escuta qualificada e encaminhamento adequado, evitando novas situações traumáticas para as vítimas.
A análise histórica aponta ainda crescimento contínuo das notificações nos últimos anos, com exceção do período da pandemia, marcado por forte subnotificação. Em 2024, os registros voltaram a crescer, reforçando a urgência de ampliar políticas públicas de prevenção, acolhimento e garantia de direitos.

O que é o Mapa Nacional da Violência de Gênero
O Mapa Nacional da Violência de Gênero é uma plataforma pública e interativa criada para integrar dados sobre violência contra mulheres e meninas no Brasil. O projeto reúne esforços do Senado Federal, por meio do Observatório da Mulher e do DataSenado, além do Instituto Natura e da associação Gênero e Número.
A iniciativa busca ampliar a transparência dos dados públicos e fortalecer políticas de enfrentamento à violência de gênero por meio da cooperação entre Estado, sociedade civil e imprensa.





















