11/07/2026
Ruy Mauro Marini faleceu em 1997, deixando uma obra que ultrapassa fronteiras disciplinares e nacionais/Foto: Internet

Ruy Mauro Marini – Perfil Intelectual

Bom Dia SC – Primeiramente, Ruy Mauro Marini avulta entre os  formuladores da Teoria Marxista da Dependência na América Latina e uma das vozes mais influentes do pensamento crítico latino-americano no século XX. Nascido em 1932, em Barbacena, Minas Gerais, formou-se em administração pública e, desde cedo, aproximou-se dos debates políticos e intelectuais que marcaram o período de intensas transformações sociais no Brasil e no continente. Sua trajetória intelectual foi profundamente atravessada pelos impasses do desenvolvimento latino-americano, pelas contradições do capitalismo dependente e pelos efeitos políticos dos regimes autoritários que se consolidaram na região a partir da década de 1960. O golpe civil-militar de 1964 no Brasil teve impacto decisivo em sua vida e obra: perseguido pelo regime, Marini partiu para o exílio, experiência que o levou a circular por países como México e Chile e que contribuiu para consolidar seu diálogo com intelectuais de diferentes contextos nacionais, fortalecendo uma perspectiva latino-americana de análise.

Destarte, no Chile, integrou-se ao ambiente acadêmico da Universidade do Chile e participou intensamente dos debates que antecederam e acompanharam o governo de Salvador Allende. Posteriormente, estabeleceu-se no México, onde lecionou na Universidade Nacional Autônoma do México, espaço decisivo para a maturação de suas principais formulações teóricas. Foi nesse contexto que publicou, em 1973, sua obra mais conhecida, Dialética da Dependência, texto que se tornou referência incontornável para a compreensão das especificidades do capitalismo na periferia do sistema mundial. Nessa obra, Marini propôs uma interpretação inovadora do subdesenvolvimento, não como etapa atrasada de um processo linear rumo ao progresso, mas como resultado histórico e estrutural da inserção subordinada das economias latino-americanas no mercado internacional. Em diálogo crítico com autores estruturalistas e desenvolvimentistas, argumentou que o capitalismo dependente não reproduz simplesmente as formas do capitalismo central, mas engendra mecanismos próprios de exploração e acumulação.

No enanto, um dos construtos centrais de seu pensamento jaz na superexploração da força de trabalho. Para Marini, nas economias dependentes, a compensação das transferências de valor para o exterior e das limitações impostas pela posição subordinada na divisão internacional do trabalho ocorre por meio da intensificação da exploração dos trabalhadores. Isso se expressa na ampliação da jornada, na intensificação do ritmo de trabalho e na remuneração abaixo do valor da força de trabalho. Tal formulação não apenas radicalizava a crítica marxista da exploração, como também explicava a persistência de desigualdades sociais profundas e a fragilidade dos mercados internos na América Latina. Ao enfatizar a articulação entre dependência externa e exploração interna, Marini ofereceu uma chave interpretativa capaz de integrar economia e política, estrutura internacional e luta de classes.

Marini e o seu Perfil Intelectual

A par disso, o perfil intelectual caracteriza-se pela combinação de rigor teórico e engajamento político. Marini não foi um pensador isolado em gabinete, mas um intelectual militante, comprometido com os projetos de transformação social no continente. Participou de debates estratégicos no interior da esquerda latino-americana, dialogando e por vezes polemizando com outras correntes da teoria da dependência, como aquelas associadas a perspectivas mais reformistas.

Ademais, ao insistir na impossibilidade de um desenvolvimento autônomo pleno nos marcos do capitalismo dependente, sustentou que as tarefas democráticas e nacionais estavam intrinsecamente ligadas à superação revolucionária do próprio sistema. Essa posição o colocou no centro de controvérsias teóricas e políticas, mas também consolidou sua imagem como um dos mais coerentes intérpretes das contradições latino-americanas.

Contudo, após o período de exílio, Marini retornou ao Brasil nos anos 1980, reinserindo-se no debate acadêmico nacional e contribuindo para a formação de novas gerações de pesquisadores. Sua obra passou por momentos de relativo esquecimento, especialmente durante a hegemonia das perspectivas neoliberais e da crise do socialismo real, mas voltou a ganhar força a partir dos anos 2000, quando a América Latina vivenciou novas experiências políticas e um renovado interesse por interpretações críticas do desenvolvimento. A atualidade de seu pensamento reside justamente na capacidade de explicar a persistência da dependência em um contexto de globalização financeira e reconfiguração das cadeias produtivas.

Ruy Mauro Marini faleceu em 1997, deixando uma obra que ultrapassa fronteiras disciplinares e nacionais. Seu legado permanece vivo não apenas nos círculos acadêmicos, mas também nos debates políticos sobre soberania, integração regional e alternativas ao neoliberalismo. Como perfil intelectual, destaca-se a coerência entre teoria e prática, a fidelidade ao método  e à originalidade com que soube interpretar a realidade latino-americana a partir de suas próprias determinações históricas.

Em epítome, ao formular categorias que iluminam a dinâmica do capitalismo dependente, Marini inscreveu seu nome entre os grandes pensadores críticos do continente, oferecendo instrumentos analíticos que continuam a desafiar e inspirar aqueles que buscam compreender e transformar a América Latina.

Adelcio Machado dos Santos
Prof. Dr. Adelcio Machado dos Santos Jornalista (MT/SC 4155)

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