Bom Dia SC – Isagogicamente, em 26 de setembro, o Dia do Internacionalista constitui uma oportunidade para refletir sobre a importância de uma profissão profundamente ligada às transformações políticas, econômicas, sociais e culturais que ultrapassam as fronteiras nacionais. Em um mundo cada vez mais interdependente, compreender as relações entre Estados, organizações internacionais, empresas, povos e sociedades tornou-se uma tarefa essencial para interpretar os acontecimentos contemporâneos e contribuir para a construção de soluções diante de desafios que assumem dimensão global.
Destarte, a formação do internacionalista está diretamente relacionada à capacidade de analisar fenômenos complexos a partir de diferentes perspectivas. Questões como conflitos internacionais, comércio exterior, direitos humanos, mudanças climáticas, migrações, integração regional, segurança internacional, cooperação para o desenvolvimento e diplomacia exigem conhecimentos que não se limitam a uma única área. Por essa razão, as Relações Internacionais possuem natureza multidisciplinar, dialogando com a política, a economia, o direito, a história, a geografia, a sociologia e outras áreas do conhecimento.
No entanto, essa característica torna a atuação do internacionalista especialmente relevante em períodos marcados por rápidas transformações. As decisões tomadas em determinado país podem produzir consequências econômicas e sociais em regiões muito distantes. Uma crise financeira, uma guerra, uma alteração nas rotas comerciais, uma epidemia ou uma decisão relacionada ao meio ambiente dificilmente permanece restrita ao território em que teve origem. A globalização ampliou as conexões entre as sociedades, mas também evidenciou vulnerabilidades e desigualdades que precisam ser compreendidas e enfrentadas de maneira coordenada.
Por conseguinte, nesse contexto, o internacionalista exerce importante papel de interpretação. Sua função não consiste apenas em acompanhar notícias sobre política externa ou acontecimentos mundiais, mas em compreender os interesses envolvidos, identificar tendências, avaliar cenários e estabelecer relações entre fatos aparentemente isolados. Trata-se de desenvolver uma visão crítica sobre a realidade internacional, evitando análises simplificadas e reconhecendo que os acontecimentos globais normalmente resultam da interação de múltiplos atores, interesses e circunstâncias históricas.
Outrossim, a profissão exige disposição permanente para o diálogo. As relações internacionais são construídas entre sociedades que apresentam diferentes culturas, valores, sistemas políticos, interesses econômicos e trajetórias históricas. Nesse ambiente, conhecer o outro é fundamental. A capacidade de comunicação intercultural, o domínio de idiomas e o respeito às diferenças constituem instrumentos importantes para quem atua em negociações, projetos de cooperação, organizações internacionais, empresas multinacionais ou instituições governamentais.
Entrementes, ser internacionalista significa compreender que a defesa dos interesses nacionais não precisa estar necessariamente em oposição à cooperação internacional. Muitos dos grandes desafios contemporâneos somente podem ser enfrentados por meio de mecanismos de colaboração entre países. Mudanças climáticas, combate ao crime transnacional, proteção da saúde pública, segurança alimentar, desenvolvimento sustentável e preservação dos oceanos são exemplos de temas que exigem respostas que ultrapassam as capacidades individuais dos Estados.
Nem todo internacionalista é diplomata
A diplomacia assume, nesse cenário, papel fundamental. Embora nem todo internacionalista seja diplomata, o estudo das Relações Internacionais permite compreender a relevância da negociação como instrumento de prevenção de conflitos e construção de acordos. Em um sistema internacional marcado simultaneamente pela competição e pela necessidade de cooperação, preservar canais de diálogo é uma das principais ferramentas para reduzir tensões e encontrar soluções pacíficas para divergências.
Outrossim, configura-se necessário reconhecer que o campo profissional do internacionalista se tornou cada vez mais amplo. Além das tradicionais áreas diplomática e governamental, existem oportunidades no comércio exterior, na consultoria internacional, na análise de riscos, na inteligência de mercado, na logística internacional, nas organizações não governamentais, nos organismos multilaterais, na cooperação internacional, na pesquisa acadêmica e nas empresas que mantêm relações com mercados estrangeiros. Essa diversidade demonstra que a compreensão do ambiente internacional deixou de ser uma preocupação exclusiva dos governos.
Contudo, no caso brasileiro, essa “performance” adquire importância particular. O Brasil possui dimensão continental, grande diversidade econômica e ambiental e significativa participação em fóruns multilaterais. Suas relações com países da América do Sul, com grandes potências econômicas e com diferentes regiões do mundo envolvem interesses comerciais, ambientais, estratégicos e sociais. Compreender essas relações é fundamental para analisar o posicionamento do país no cenário internacional e as possibilidades de ampliar sua participação econômica e política no mundo.
Da mesma forma, o internacionalista precisa manter um olhar atento às mudanças tecnológicas. A transformação digital, a inteligência artificial, a segurança cibernética e a circulação instantânea de informações alteraram profundamente as relações de poder e a maneira como governos, empresas e sociedades interagem. Novos desafios surgem constantemente, exigindo atualização profissional e capacidade de compreender fenômenos que, há poucas décadas, sequer faziam parte das principais discussões internacionais.
Celebrar o Dia do Internacionalista, portanto, é reconhecer uma profissão que procura compreender um mundo complexo, conectado e em permanente transformação. É valorizar profissionais capazes de interpretar diferentes realidades, estabelecer pontes entre culturas e contribuir para processos de negociação, cooperação e tomada de decisão.
Todavia, mais do que conhecer países, tratados ou organizações, ser internacionalista significa desenvolver uma forma particular de observar o mundo: perceber que acontecimentos locais podem produzir consequências globais e que problemas globais frequentemente se manifestam no cotidiano das sociedades. Significa compreender que, apesar das diferenças existentes entre os povos, muitos desafios são compartilhados e exigem diálogo, conhecimento e cooperação.
Em epítome, nesse sentido, o Dia do Internacionalista não deve ser apenas uma celebração profissional, mas também um momento de reflexão sobre a responsabilidade de quem escolhe estudar e compreender as relações entre sociedades, Estados e instituições.
Por final, em tempos de incertezas, conflitos e rápidas transformações, essa capacidade de análise torna-se cada vez mais necessária para compreender o presente e contribuir para a construção de relações internacionais mais equilibradas, cooperativas e conscientes.

Jornalista (MT/SC 4155)





















