11/07/2026
Para o ensino técnico decolar em Santa Catarina há necessidade de decisões estruturais que não são ajustes pequenos
Para o ensino técnico decolar em Santa Catarina há necessidade de decisões estruturais que não são ajustes pequenos

Por que o ensino técnico em Santa Catarina não decola?

Bom Dia SC – Quando o governador Jorginho assumiu o Estado de Santa Catarina, em 2023, recebi o honroso convite para ser Secretário de Estado da Educação. Dentre os grandes gargalos da educação catarinense estava o ensino médio, um dos piores do país. Dentre os mais de 230 mil alunos matriculados nesse nível de ensino, apenas 11 mil estavam no ensino técnico. A FIESC – Federação da Indústria de Santa Catarina reclamava, e reclama, da dificuldade de pessoal técnico para diversas áreas. Em conjunto, elaboramos um projeto para revitalização do ensino técnico catarinense.

Sabedores que a possibilidade de crescimento pessoal e social, sobretudo da população mais economicamente carente, é o ensino técnico, foi construída uma proposta de expansão desse nível de ensino, cujo programa o govenador denominou de CaTec – Ensino Técnico Catarinense.

Dos jovens que cursavam ensino técnico, grande parte estavam no ensino técnico agrícola e outros em estabelecimentos de ensino conhecidos como CEDUP – Centro de Educação Profissional, com estrutura precária para a formação profissional desejada. Em conjunto com a FIESC – Federação da Industria de Santa Catarina, foi desenhado um programa de ensino técnico que incluía a parceria com as instituições como Senai, Senac, Universidades e demais instituições que pudessem ser parceiras para ampliar a formação técnica no Estado.

Sob forte resistência da estrutura educacional pública da Secretaria da Educação, mas com a determinação fervorosa do governador Jorginho, repassamos o ensino técnico agrícola para ser gerenciado e administrado pela EPAGRI – Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina. Certamente, os CEDUPs agrícolas serão um caso de sucesso a ser relatados como exemplo de formação técnica para o agronegócio em nosso país.

Os demais CEDUPs foram revitalizados buscando-se equalizar as necessidades regionais, com certa dificuldade de expansão. Criou-se, então o CaTec – Catarinense Técnico, assim denominado pelo governador Jorginho, construído em conjunto com o setor produtivo, verificando-se as prioridades de formação profissional em cada região. As dificuldades para implantação do programa foram imensas, a começar pela resistência a própria equipe interna da Secretaria de Estado da Educação, alimentada pelas Regionais de Educação, pelas escolas e pela estrutura educacional.

Cientes de que as escolas públicas não possuem estrutura para formação profissional, por falta de laboratórios e professores qualificados para tanto, pensou-se na parceria com as instituições que possuem ensino técnico. A resistência foi visível, dura e articulada. Inicialmente, para intermediar e equilibrar o programa, construiu-se a possibilidade de oferta, pelas escolas do Estado, no ensino médio, cursos técnicos, por modalidades diversas. Cursos esses, cujas demandas, não eram e nem são atrativos ao mercado de trabalho. Apesar disso, o ensino técnico cresceu. Mas houve espantosa evasão e constatada duvidosa formação.

Todavia, a ideia de que o ensino técnico “não decola” em Santa Catarina precisa ser melhor analisada, porque o SENAI, os Institutos Federais e Educação privada fazem formação qualificada, embora pouco numerosa. De todo modo o ensino técnico está crescendo, mas ainda não atingiu escala e impacto necessários ao potencial do Estado. A pergunta é: por que, um Estado com o desenvolvimento de Santa Catarina tem um ensino médio técnico pouco expressivo se comparado com os países mais desenvolvidos?

Para responde-la não é difícil encontrar variáveis que explicam o baixo  desenvolvimento dessa modalidade de ensino. Primeiramente, o problema nasce dentro da própria equipe da Secretaria de Estado da Educação que coordena o ensino técnico, com visão demasiadamente burocrática, distanciada da realidade do setor produtivo, com dificuldade de visão empreendedora, cria regras acadêmicas desconectadas da realidade social do trabalho e da riqueza.

Em outro plano, pode-se dizer que, ainda, entre nós, idolatra-se o ensino superior, com o imaginário que o sucesso profissional está em fazer um curso universitário, pois somente ele traz ascensão social. Então, o curso técnico é visto como segunda opção, embora seja o único com empregabilidade real. Essa visão é um fenômeno nacional, isto é, o ensino técnico não está sendo percebido como caminho para crescimento de carreira.

Por outro lado, há uma desconexão com o mercado de trabalho regional que, apesar de avanços, historicamente houve oferta de cursos genéricos, pouca escuta do setor produtivo e oferta padronizada com currículos burocráticos, próprios da escola pública, pouco afeita a olhar para as necessidades sociais.

Hoje, com dificuldade, a Política do Ensino Profissional Técnico e CaTec, procuram corrigir essa distorção em Santa Catarina.  Entretanto, a estrutura da rede pública é o gargalo essencial: não possui qualificação para o ensino técnico e resiste em fazer parceria com quem sabe fazer. A estrutura das escolas públicas não possui laboratórios adequados, tem dificuldade de contratar professores qualificados para o ensino técnico e opera num modelo totalmente ultrapassado. Há enorme resistência à mudança no ensino público. E pior, há ferrenha resistência com parcerias.

Pela experiência na passagem da Secretaria de Estado da Educação, assessorado pela Professora Patrícia Lueders e um grupo de entusiastas profissionais, articulados com a FIESC e pressionados pelo Governador Jorginho, auxiliados pelo Conselho Estadual de Educação, criamos inúmeros cursos técnicos a serem ofertados pelas escolas do Estado e em parceria.

Mas, “a engrenagem não engrena” e a resistência é visível. O modelo público, burocrático, retrógrado e fragmentado resiste às mudanças e insiste no ensino verbalista. Por outro lado, vemos os institutos federais fazendo esforços elitizados e até desconhecidos. O SENAI e SENAC, com repercussão social mais qualificada sendo exemplo de ensino técnico qualificado, porque está lincado com o setor produtivo, enquanto o ensino público ensina “coisas” generalistas, desconectadas da vida real e de qualidade duvidosa.  

Por outro lado, falta uma política consistente, ao longo do tempo, independente de governos específicos, com gestões que não interrompam a continuidade e com a construção de infraestrutura e formação de pessoal próprio para formação técnica. O Ensino médio em Santa Catarina é fraco, sem uma política estratégica definida para a formação dos mais de duzentos mil jovens que frequentam essa modalidade de ensino. Quando a base acadêmica é frágil, dificulta o jovem prosseguir numa formação mais exigente. Daí a cultura ilusória de que prosseguir na formação, passar de ano, ter notas boas é um sinal de progresso.

Em meio a uma organização e regulação educacional conflitiva e resistente, há uma sinalização ambígua do mercado de trabalho. Empresários reclamam, mas não tomam iniciativas para auxiliar na formação técnica. Esperam que o Estado lhes entregue pessoas preparadas para o exercício profissional, cujos salários nem sempre são atrativos. Enfim, a estrutura educacional pública não está preparada e resiste ao ensino técnico.

Mas há um avanço. Quando criamos o CaTec, com uma política de parceria e integração com instituições que já fazem ensino técnico, as matrículas cresceram cerca de muito nessa modalidade de ensino. Apesar do avanço, o ensino técnico em Santa Catarina ainda não decolou, mas está na pista de aceleração. Somente não decola se a equipe técnica responsável por fazer o carro andar ficar olhando no retrovisor. Por isso, quem organiza e programa do ensino técnico, precisa de especialização, dinamicidade, visão empreendedora e capacidade de integração com a realidade empresarial.

Respondendo, em síntese, a pergunta feita no título da reflexão, pode-se dizer que o ensino técnico em Santa Catarina não decola plenamente porque não é a falta de demanda, mas um problema de estratégia de planejamento, de estrutura, do modelo institucional de coordenação, da cultura que empurra para a universidade, da rede pública que não entrega com escala e qualidade homogênea, das políticas descontinuadas por anos, do mercado que envia sinais contraditórios, da falta de engajamento e posicionamento estratégico na política educacional do Estado, entre outros motivos.

Santa Catarina tem uma economia para sustentar um ensino técnico forte

Interessante notar que Santa Catarina tem uma economia para sustentar um ensino técnico forte, mas não construiu um sistema educacional coerente com essa realidade. Se olharmos o ensino técnico bem sucedido, vamos encontrar na Alemanha, ou na Europa em geral, com o chamado sistema dual: o aluno estuda, trabalha ao mesmo tempo, possui contrato formal com a empresa desde o início, os currículos escolares são construídos com o setor produtivo e há uma certificação padronizada. O Jovem entra empregado durante a formação. Estamos longe disso, mas precisamos avançar.

Creio que necessitamos, para nos tornar um país próspero, revolucionar o sistema educacional, extinguindo as escolinhas de periferia e criando centros educacionais cuja qualificação de formação atendem as perspectivas diferenciadas de vida. Há esperança que o CaTec tenha êxito. Mas, na atual conjuntura estrutural pública, tenho dúvidas.

Para o ensino técnico decolar em Santa Catarina há necessidade de decisões estruturais que não são ajustes pequenos. Primeiro, há necessidade de tornar o ensino técnico protagonista e não acessório. Hoje, ele é ainda um anexo do ensino médio, com uma equipe que o planeja e faz gestão sem a qualificação adequada. É preciso criar uma rede própria de ensino técnico, com foco, recursos, propósito, gestão, carreira e lógica diferentes da escola tradicional. Isso significa decisão política com decisão pouco simpática para a máquina pública, mas com ganhos à sociedade.

Há necessidade de construir um plano estratégico, especializado por regiões produtivas. Concluo que é um erro oferecer aqueles cursos “meia boca”, com o nome enganoso de formação profissional, nas escolas públicas sem laboratórios, cujo aprendizado se faz na teoria, com professores sem experiência e formação adequada.

Por outro lado, o sistema educacional comete um erro terrível, em nosso tempo, continuar oferendo cursos genéricos. Para tanto, há necessidade de uma reformulação total, com possibilidade flexível de cada região criar estruturas próprias, diversificadas, com integração com o setor produtivo e outras instituições e, sobretudo, com as universidades comunitárias. De outro lado, é preciso resolver o gargalo docente. Sem isso, todo o esforço é inútil. Não temos carreira para professores técnicos nem condições para profissionais de mercado lecionarem, muito menos remuneração compatível.

O ensino técnico somente começa a decolar quando deixa de ser política educacional e passa a ser política econômica. O CaTec foi um passo na direção correta, mas ele é apenas um programa de expansão. O que Santa Catarina precisa é reforma estrutural. Para tanto, não há necessidade de inventar nada, requer apenas ter coragem governamental de alinhar tudo a um modelo único, contínuo e obrigatório em escala. Isso exige visão diferenciada, flexibilidade curricular, relação direta com o setor produtivo, gestão mais descentralizada, investimento em centros educacionais especializados, eliminação da estrutura interna que tende ao conservadorismo e outras tantas medidas, nem sempre simpáticas ao atual status quo da estrutura educacional do Estado.

Joaçaba, vésperas de 1 de maio de 2026

Aristides Cimadon
Professor e Advogado

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