Bom Dia SC – Em primeiro lugar, o dia do historiador, celebrado em 19 de agosto no Brasil, é uma data que convida à reflexão sobre a importância deste profissional que se debruça sobre os vestígios do passado para iluminar o presente e lançar perguntas ao futuro. Mais do que um simples guardião de datas e fatos, o historiador é um intérprete da experiência humana, alguém que lida com a complexidade da memória, das narrativas e das disputas por sentido que moldam a trajetória das sociedades. Em tempos de aceleração da informação, revisionismos apressados e negacionismos periculosos, o trabalho do historiador se torna ainda mais urgente e necessário.
Entretanto, ofício do historiador não se resume a colecionar acontecimentos nem a reproduzir cronologias. Ao contrário, exige uma postura crítica diante das fontes, um compromisso ético com a veracidade e uma sensibilidade aguda para compreender contextos, intencionalidades e silêncios. A história não é um espelho passivo do que foi; é construção, interpretação, permanente elaboração de perguntas e de hipóteses. O historiador, portanto, é um artesão da dúvida, alguém que evita respostas fáceis e se empenha em revelar as camadas do tempo com rigor, sem ceder às tentações do maniqueísmo.
Destarte, celebrar o dia do historiador é, portanto, reconhecer o valor de uma profissão que está na base da construção da consciência crítica. O historiador contribui para o fortalecimento da cidadania ao desnaturalizar o presente, ao mostrar que nada é imutável, que instituições, leis, costumes e relações de poder são produtos históricos e, portanto, podem ser transformados. Ao estudar as lutas por direitos, as revoluções, os conflitos sociais e as múltiplas vozes que compõem o passado, o historiador nos ajuda a perceber que a sociedade em que vivemos é resultado de disputas, resistências e escolhas. Essa compreensão é fundamental para formar cidadãos mais conscientes e participativos.
Todavia, não se pode ignorar que o trabalho do historiador é muitas vezes invisibilizado ou desvalorizado. Em um mundo cada vez mais pautado pela lógica da velocidade e do consumo imediato, a pesquisa histórica, que demanda tempo, paciência e reflexão, é vista por vezes como algo distante da realidade concreta. Soma-se a isso um cenário de precarização do trabalho intelectual, cortes em políticas de fomento à pesquisa e uma crescente desvalorização das humanidades no ambiente educacional. O historiador, em seu dia, também precisa ser lembrado como um trabalhador que enfrenta desafios estruturais e que luta pela valorização de sua atuação profissional e pelo reconhecimento social de sua função.
A atuação do historiador para além do ambiente acadêmico
Outro ponto que merece destaque jaz na importância da atuação do historiador para além do ambiente acadêmico. Embora a universidade ainda seja um espaço central para a produção do conhecimento histórico, há cada vez mais historiadores atuando em arquivos, museus, centros culturais, editoras, mídias digitais e nas salas de aula da educação básica. Esse movimento de ampliação dos espaços de atuação revela a vitalidade da profissão e sua capacidade de diálogo com diferentes públicos. Em tempos de redes sociais e de disputas intensas por narrativas históricas, o historiador tem um papel fundamental na mediação entre o saber especializado e o debate público. Sua formação o capacita a intervir criticamente nos embates contemporâneos sobre memória, identidade, patrimônio e justiça histórica.
Outrossim, impende destacar o papel formativo do historiador no ensino da história. Nas escolas, esses profissionais têm a missão essencial de estimular o pensamento crítico, o respeito à diversidade e o reconhecimento da complexidade das experiências humanas. Ensinar história não é apenas transmitir conteúdos, mas provocar o aluno a se situar no tempo, a reconhecer diferentes pontos de vista e a questionar as formas de dominação e exclusão que marcaram e ainda marcam nossas sociedades. Num contexto de ataques ao conhecimento histórico e de tentativas de controle ideológico dos currículos escolares, o historiador-professor se torna uma figura chave na defesa da liberdade de pensamento e da pluralidade de vozes.
Por conseguinte, o dia do historiador, portanto, não deve ser apenas uma efeméride simbólica, mas uma oportunidade para reafirmar o compromisso com a memória, a verdade e a justiça. É também um momento para reconhecer as trajetórias individuais e coletivas de tantos profissionais que, com dedicação e coragem, enfrentam os desafios do tempo presente sem abrir mão do rigor metodológico e da responsabilidade social. O historiador é, por excelência, alguém que trabalha com as marcas do tempo, que escuta os ecos do passado e busca compreendê-los em sua complexidade, para que possamos, como sociedade, construir caminhos mais conscientes e solidários.
Neste dia, é importante também pensar nos diversos sujeitos históricos que durante muito tempo foram invisibilizados ou marginalizados pelas narrativas oficiais. O historiador contemporâneo tem se esforçado para trazer à tona as histórias de mulheres, de negros, de povos indígenas, de trabalhadores, de camponeses e de tantos outros grupos que foram sistematicamente silenciados. Esse trabalho de recuperação da memória e de ampliação do escopo da história é uma das grandes conquistas das últimas décadas e tem mostrado que a história é plural, diversa e em constante transformação. O historiador, ao abrir espaço para essas vozes, contribui para uma sociedade mais democrática e inclusiva.
A história, como campo de conhecimento, nos ensina que o passado nunca está totalmente encerrado. Ele é continuamente reatualizado, reinterpretado, mobilizado para diferentes fins. Por isso, a presença do historiador nos debates públicos é essencial. Em tempos de fake news, de revisionismos negacionistas e de manipulações ideológicas do passado, a atuação comprometida e crítica do historiador é um antídoto contra a banalização da verdade e contra os usos políticos autoritários da memória. O historiador, ao exercer seu ofício com honestidade intelectual, ajuda a construir um horizonte mais lúcido e mais ético.
Em última análise, ao celebrarmos o dia do historiador, é preciso também pensar nos jovens que se dedicam à formação nessa área. A escolha pela história, muitas vezes movida por um profundo desejo de compreensão do mundo, é também um gesto de resistência e de esperança. Formar-se historiador hoje é aceitar o desafio de lidar com a complexidade, de questionar certezas estabelecidas, de enfrentar narrativas simplificadoras e de contribuir para o debate público com argumentos sólidos e embasados.
Em epítome, consiste em compromisso com a verdade, com a justiça e com a dignidade humana.
Prof. Dr. Adelcio Machado dos Santos
Jornalista (MT/SC 4155)





















