30/08/2026
Gildo de Freitas – O Gaúcho Raíz
Gildo transmitia independência, espontaneidade e autenticidade/Foto: IA

Gildo de Freitas – O Gaúcho Raíz

Bom Dia SC – Em preliminar, falar de Gildo de Freitas implica falar de uma das expressões mais autênticas da cultura popular do Rio Grande do Sul. Cantor, compositor, gaiteiro e, sobretudo, trovador, Gildo transformou em versos a experiência cotidiana do homem simples, fazendo da linguagem campeira, do humor e da capacidade extraordinária de improvisação os elementos fundamentais de sua obra. Mais do que um intérprete da música regional, tornou-se personagem do próprio imaginário gaúcho, identificado com um tipo humano que valoriza a franqueza, a coragem, a liberdade, a palavra empenhada e a ligação profunda com a terra.

Por conseguinte, tal circunstância explica muito de sua produção artística. Gildo não buscava parecer erudito nem procurava adaptar sua linguagem aos padrões das elites culturais. Falava e cantava como o povo que conhecia. Seus versos reproduziam expressões, costumes, conflitos, dificuldades e alegrias presentes nos galpões, nas pequenas propriedades rurais, nos bairros populares e nas rodas de conversa do Rio Grande do Sul. Essa espontaneidade fez dele um artista próximo de seu público. Quem escutava Gildo reconhecia em suas músicas personagens, situações e modos de falar que pertenciam à realidade cotidiana.

Essa capacidade aproximava Gildo de uma tradição oral muito antiga. Antes que a música pudesse ser distribuída rapidamente por discos, televisão ou meios digitais, eram os cantadores, repentistas e trovadores que transmitiam histórias, críticas e valores através da palavra. O talento estava não somente na voz ou no instrumento, mas na capacidade de contar acontecimentos e dialogar diretamente com quem assistia. Gildo dominava esse universo como poucos.

Entretanto, a partir da década de 1950, sua popularidade cresceu significativamente. O rádio foi fundamental nesse processo. Gildo participou de programas realizados ao vivo e tornou-se uma das grandes atrações do “Grande Rodeio Coringa”, da Rádio Farroupilha, um dos espaços importantes para a divulgação da música regional gaúcha naquele período. Sua presença no rádio permitiu que aquele trovador vindo das rodas populares alcançasse ouvintes de diferentes regiões do Estado.

Quando passou a registrar sua obra em discos, Gildo conseguiu levar para as gravações boa parte da personalidade que já demonstrava nas apresentações. “História dos Passarinhos” tornou-se uma de suas composições mais lembradas, assim como outras músicas que abordavam o cotidiano, a vida no campo, os relacionamentos humanos, os trabalhadores, os costumes e as transformações da sociedade.

Gildo de Freitas possui virtudes e defeitos

Quiçá uma das características mais interessantes de Gildo consista justamente no fato de sua música não construir um gaúcho idealizado ou distante da realidade. O gaúcho de Gildo possui virtudes e defeitos. É trabalhador, mas também gosta do baile; pode ser valente e, ao mesmo tempo, engraçado; enfrenta dificuldades financeiras, conflitos amorosos, problemas familiares e mudanças sociais. É um personagem humano. Essa característica diferencia sua obra de determinadas representações excessivamente solenes do regionalismo.

Outrossim, Gildo não escamoteava sua própria origem. Ao contrário, fazia dela uma identidade. Em “Reconheço que sou Grosso”, uma de suas canções mais conhecidas, transforma aquilo que poderia ser considerado defeito pelos ambientes mais sofisticados em motivo de afirmação cultural. Sua “grossura” não significava simplesmente falta de educação. Representava a recusa em abandonar as características do homem comum para aparentar uma sofisticação artificial. É exatamente nesse sentido que Gildo pode ser definido como um gaúcho raiz.

Ser um gaúcho raiz, nesse contexto, não significa apenas usar bombacha, bota, chapéu ou tomar chimarrão. Significa conservar uma determinada maneira de enxergar o mundo. Gildo transmitia independência, espontaneidade e autenticidade. Não parecia representar um personagem criado especialmente para os palcos. A figura pública estava intimamente relacionada com o homem que conhecia a vida simples, os bailes, os bolichos, as estradas e a convivência com diferentes personagens populares.

Seu humor merece atenção especial. Gildo compreendia que a cultura popular não é formada somente por grandes dramas históricos ou exaltações heroicas. A capacidade de rir de si mesmo e dos acontecimentos cotidianos também constitui uma forma de sabedoria. Em muitas de suas composições, o exagero, a provocação e a ironia aparecem como recursos narrativos. A plateia não era apenas espectadora: participava daquele universo e compreendia os códigos presentes nas histórias.

Entrementes, sua obra registrou aspectos importantes de uma sociedade gaúcha em transformação. O Rio Grande do Sul vivido por Gildo atravessou um acelerado processo de urbanização, crescimento das cidades, expansão dos meios de comunicação e mudanças nas relações de trabalho. O artista transitava justamente entre esses mundos. Nasceu em uma Porto Alegre que ainda possuía amplas áreas rurais e viveu até uma época em que a televisão já modificava profundamente os hábitos culturais. Sua música conservou a memória de costumes tradicionais justamente quando eles começavam a dividir espaço com a modernização.

Gildo de Freitas morreu em Porto Alegre, em 4 de dezembro de 1982. Entretanto, sua presença na cultura gaúcha ultrapassou sua existência física. Sua influência permanece na música regional, especialmente entre trovadores, cantadores e compositores que encontram na linguagem popular uma forma legítima de expressão artística. O próprio reconhecimento institucional demonstra a dimensão de seu legado: a data de 4 de dezembro foi posteriormente consagrada no Rio Grande do Sul em homenagem à tradição do repente.

Mais de quatro décadas depois de sua morte, Gildo continua sendo ouvido porque representou algo maior do que uma época. Representou uma maneira de ser. Sua obra lembra que a cultura de um povo não existe apenas nos livros ou nas instituições, mas também na conversa, na música, no improviso, no sotaque, nas histórias transmitidas de geração para geração e na capacidade de transformar acontecimentos aparentemente simples em poesia.

Gildo de Freitas foi exatamente isso: um poeta formado pela experiência popular. Não precisou abandonar suas origens para conquistar reconhecimento. Ao inverso, foi justamente por permanecer ligado a elas que se tornou inesquecível. Trovando, tocando sua gaita, contando histórias e provocando adversários com versos improvisados, construiu um lugar definitivo na história cultural do Rio Grande do Sul.

Em epítome, chamá-lo de “gaúcho raiz” não consiste em utilizar uma expressão contemporânea para definir um personagem do passado. É reconhecer em Gildo de Freitas uma autenticidade difícil de fabricar. Ele não apenas cantou o Rio Grande. Ele viveu, interpretou e personificou uma parte essencial de sua cultura.

Por final,  enquanto houver uma roda de trova, uma gaita tocando, um verso improvisado ou alguém disposto a preservar a memória campeira sem transformá-la em peça de museu, alguma coisa do velho Gildo continuará presente, lembrando que tradição verdadeira é aquela que permanece viva na voz do povo.

Adelcio Machado dos Santos
Prof. Dr. Adelcio Machado dos Santos Jornalista (MT/SC 4155)

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