Bom Dia SC – Em nosso último comentário discorremos sobre a importância dos diplomas de ensino superior para o sucesso na vida profissional. Percebemos que os diplomas impactam na vida das pessoas se trouxerem, com eles, a marca do ensino de qualidade. Não é qualquer diploma que tem importância. Aliás, como as pessoas, os Estados desenvolvidos trazem a marca da educação de qualidade. Escolas públicas de ensino básico de excelência, universidades especializadas com produção de conhecimento, pesquisa cientifica e tecnologia são os motores que propiciam desenvolvimento econômico e qualidade de vida das pessoas.
É contrastante verificar o desenvolvimento de alguns países se comparados com o Brasil, nos últimos 40 anos. Quem analisa o desenvolvimento da Suécia, da Austrália, da Coréia do Sul, da Finlândia e da China, entre outros, nos últimos anos, verificará que a mola propulsora da qualidade de vida e do desenvolvimento foi o ensino de qualidade em todos os níveis, sobretudo a produção de conhecimento e o investimento em ciência e tecnologia.
Comparemos o Produto Interno Bruto – PIB do Brasil e o da China nos últimos 30 anos, por exemplo. Em 1995 o PIB do Brasil girava em torno de novecentos bilhões de dólares e o da China em torno de setecentos bilhões. Dizíamos que seríamos uma das maiores potências do mundo no século XXI. Passados 30 anos, o Brasil se depara com um PIB em torno de dois e meio trilhões de dólares, enquanto a China beira aos vinte trilhões.
Nem vamos alongar a comparação com outros países menores com menores dimensões geográficas e econômicas do que a China, que planejaram suas universidades e suas estratégias educacionais como instrumento de desenvolvimento. Em síntese, construíram universidades que hoje estão entre as melhores do mundo, com acesso por mérito e exigência de qualidade e produção de conhecimento espetaculares. O Brasil cresceu, no ensino superior, em quantidade e desceu ladeira abaixo em qualidade, embora os discursos se multipliquem com afirmações promotoras de um cenário maravilhoso, mas de qualidade duvidosa.
O Ensino Superior no Brasil, segundo o INEP/CENSO/2024, nos últimos 30 anos, teve crescimento em quantidade, saltando para 206 universidades, 417 Centros Universitários, 1897 Faculdades e 41 Institutos Federais, perfazendo 2.561 instituições de ensino superior. Essas instituições abrigam 10,2 milhões de estudantes matriculados, dos quais 87,6% estão em instituições privadas. Do total de estudantes, 53% estão em universidades, 33,7% em centros universitários e 11% em faculdades. Apenas 2,3% estão nos Institutos Federais e Cefets.

O INEP, pelo Censo/2024 revela, ainda, que as instituições de ensino superior, das quais 74,1% são faculdades, oferecem 45,7 mil cursos, num total de 23,6 milhões de vagas. Isto é, o dobro de vagas para matriculados e, praticamente, cinco vezes mais vagas para os números de formandos do ensino médio. Em 2024 ingressaram no ensino superior, sendo dados do CENSO, 5 milhões de novos estudantes, dos quais, 67% em EaD (Educação a Distância).
Para se ter uma ideia, entre 2014 e 2024 o número de estudantes em cursos presenciais decresceu em 30% e em EaD aumentou 360%. Esses números cotejados com os concluintes revelam, com todo o respeito, monstruoso desperdício. O total de concluintes em cursos de graduação presencial chega a 54% e nos cursos em EaD gera em torno de 45%.
O CENSO 2024, publicado recentemente, traz números reveladores de uma educação superior brasileira que carece de planejamento estratégico e de visão de país. O plano nacional de educação, eivado de metas impossíveis e cunho ideológico, carece de estratégias para sua execução. Não há clareza dos fins para a educação brasileira. Ora, se não se sabe onde se quer chegar, em nível de nação, qualquer caminho serve. É o que acontece com nossa educação.
Neste século, sobretudo a partir de 2004, com novas orientações regulatórias do Ministério da Educação, a implantação do SINAES (sistema de avaliação) e outras medidas, fizeram crescer uma bolha do ensino a distância de péssima qualidade, salvo raras exceções. Essa modalidade multiplicou polos, enganou estudantes, vendeu diplomas e formou inúmeras pessoas que, em síntese, possuem diploma, mas na prática não aprenderam a fazer absolutamente nada.
Exemplo dessa realidade é o jovem escriturário de Ciências Contábeis que trabalha em escritório de contabilidade e fez o curso superior na área a distância, mas, após diplomado, continua a fazer as mesmas coisas que fazia antes, do mesmo jeito e sem agregar qualidade e, portanto, sem novas oportunidades. Apenas tem o diploma. Isso não ocorre com servidores públicos que, com o diploma, mesmo de inútil conhecimento, agregam alguns trocados a mais em sua penosa carreira.
Essa bolha crescente do ensino a distância, capitaneado por instituições privadas com fins lucrativos, impulsionada pelo FIES (financiamento estudantil do governo), beneficiou as gigantes da educação que lucraram bilhões, mas cuja preocupação com a qualidade de formação ficou muito a margem. Hoje, essa modalidade, apesar do crescimento exponencial, começa a sofrer com a inadimplência, evasão e promessas de qualidade de ensino.
Principalmente de 2014 a 2014, essas instituições de educação a distância, com dinheiro garantido pelo governo, cresceram, enriqueceram seus donos, inflacionaram o mercado e graduaram milhares de pessoas inaptas para o mercado de trabalho, o empreendedorismo e à própria cidadania. Formaram inúmeros licenciados que hoje são professores, infelizmente, analfabetos funcionais. São inúmeros brasileiros com diploma superior, que engrossam as estatísticas duvidosas do IBGE, mas que não têm mercado de trabalho nas profissões que se formaram.
Ensino de Qualidade
Vem aí, neste ano, o novo plano nacional de educação, para os próximos 10 anos. Ao que parece, no andar da carruagem, não trará nada planejado de novo para as próximas gerações. Enquanto a Inteligência Artificial vai fazendo e pressionando as mudanças com novos passos tecnológicos e de comunicação, a escola pública e a universidade brasileira, continua abanando vento, num Brasil onde quem se salva é quem tem condições de uma boa formação. Esta exige disciplina, dedicação, paciência e muito esforço e trabalho.
Aristides Cimadon
Professor e Advogado




















