Bom Dia SC – Isagogicamente, pensar a universidade brasileira no século XX é, inevitavelmente, reencontrar a figura de Darcy Ribeiro, intelectual inquieto, educador militante e homem público que fez da educação o eixo estruturante de um projeto de nação. Sua obra e sua prática política estiveram sempre orientadas pela convicção de que o Brasil somente alcançaria autonomia cultural, desenvolvimento econômico e justiça social se construísse um sistema educacional amplo, democrático e profundamente vinculado à realidade do povo. Nesse horizonte, emerge a ideia da “universidade necessária”, conceito que sintetiza sua crítica ao modelo universitário tradicional e sua proposta de uma instituição comprometida com a transformação social.
No entanto, Darcy Ribeiro não foi apenas um teórico da educação. Antropólogo de formação, dedicou-se ao estudo dos povos indígenas e à compreensão da formação histórica e cultural do Brasil, esforço que culminou em obras como O Povo Brasileiro, nas quais buscou interpretar a identidade nacional a partir da mestiçagem, das desigualdades estruturais e das potencialidades criativas do povo brasileiro. Essa visão ampla da sociedade alimentou sua concepção de universidade: para ele, a instituição universitária não poderia ser um enclave elitista, voltado à reprodução de saberes importados e distante dos dramas nacionais. Ao contrário, deveria constituir-se como centro de produção de conhecimento original, voltado aos problemas concretos do país.
Ademais, a noção de universidade necessária aparece formulada de modo mais sistemático em A Universidade Necessária. Nesse livro, Darcy analisa criticamente o modelo universitário herdado da tradição europeia e adaptado de forma acrítica ao contexto latino-americano. Segundo ele, a universidade brasileira nascera marcada por um caráter profissionalizante estreito e por uma estrutura fragmentada, incapaz de integrar ensino, pesquisa e extensão de maneira orgânica. Além disso, estava voltada majoritariamente à formação de quadros para as elites, reproduzindo privilégios e mantendo-se afastada das grandes maiorias populares.
Todavia, para Darcy Ribeiro, a universidade necessária seria aquela capaz de romper com esse padrão dependente e excludente. Ela deveria assumir explicitamente um projeto nacional de desenvolvimento, contribuindo para a superação do subdesenvolvimento e da dependência tecnológica. Isso significava investir na pesquisa científica de ponta, mas também redefinir prioridades, orientando a produção de conhecimento para áreas estratégicas ao país, como saúde pública, educação básica, desenvolvimento agrícola, industrialização e planejamento urbano. A universidade, nesse sentido, não seria neutra: assumiria um compromisso ético e político com a emancipação nacional.
Darcy na criação da Universidade de Brasília
Outrossim, tal concepção ganhou expressão prática na participação decisiva de Darcy na criação da Universidade de Brasília, ao lado de Anísio Teixeira. A UnB foi pensada como uma instituição inovadora, estruturada em institutos centrais, com forte ênfase na pesquisa e na interdisciplinaridade. Pretendia-se ali superar a rigidez das cátedras tradicionais e estimular o diálogo entre diferentes áreas do saber. Mais do que um experimento administrativo, tratava-se de um projeto político-pedagógico: construir, no coração da nova capital do país, uma universidade que simbolizasse a modernização e a autonomia intelectual do Brasil.
Entremente, a universidade necessária, na visão de Darcy, deveria também democratizar o acesso ao ensino superior. Não bastava reformar currículos ou reorganizar departamentos; era preciso ampliar significativamente as oportunidades para estudantes oriundos das camadas populares. Essa ampliação não seria apenas uma questão de justiça social, mas uma condição para enriquecer a própria produção de conhecimento, incorporando novas experiências, perspectivas e demandas. A diversidade social dentro da universidade fortaleceria sua capacidade crítica e sua sintonia com a realidade nacional.
Outro aspecto central do pensamento de Darcy Ribeiro jaz na indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. A universidade necessária não poderia limitar-se à transmissão de conteúdos já consolidados; deveria ser um espaço permanente de investigação e de intervenção na sociedade. A extensão universitária, nesse contexto, deixaria de ser atividade marginal para tornar-se dimensão constitutiva da vida acadêmica, promovendo a troca de saberes entre universidade e comunidade. Tal dinâmica permitiria que o conhecimento científico dialogasse com os saberes populares, produzindo sínteses criativas e soluções inovadoras.
Entretanto, não se pode ignorar que o projeto de Darcy Ribeiro encontrou resistências e sofreu interrupções, especialmente durante o período autoritário instaurado em 1964. A repressão política atingiu duramente a Universidade de Brasília e dispersou muitos de seus quadros. Ainda assim, as ideias de universidade necessária sobreviveram e continuam a inspirar debates contemporâneos sobre reforma universitária, financiamento da educação superior e responsabilidade social das instituições públicas.
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Por conseguinte em tempos de globalização e de pressões mercadológicas sobre o ensino superior, o pensamento de Darcy Ribeiro mantém notável atualidade. Sua crítica à dependência científica e tecnológica ressoa diante dos desafios de inovação e soberania nacional. Sua defesa da democratização do acesso dialoga com políticas de inclusão e ações afirmativas implementadas nas últimas décadas. E sua compreensão da universidade como instituição estratégica para o desenvolvimento do país reafirma a centralidade da educação no projeto de futuro do Brasil.
Em epítome, falar de Darcy Ribeiro e da universidade necessária é revisitar uma utopia concreta: a crença de que a universidade pode e deve ser protagonista na construção de uma sociedade mais justa, autônoma e solidária. Mais do que um modelo fechado, trata-se de um horizonte orientador, que convoca docentes, estudantes e gestores a repensarem continuamente o papel social da instituição universitária.
Por final, ao insistir que a universidade brasileira precisava ser reinventada para servir ao povo e ao desenvolvimento nacional, Darcy Ribeiro legou não apenas uma crítica, mas repto permanente à inteligência e ao compromisso público das gerações futuras.





















