Bom Dia SC – A fotografia, em sua essência, configura-se mais do que uma simples técnica de registro visual. Ela é memória, linguagem, testemunho e criação. No dia em que se celebra oficialmente a sua existência — 19 de agosto, o Dia Mundial da Fotografia —, somos convidados a olhar com mais atenção para esse recurso que molda tanto a maneira como vemos o mundo quanto a forma como nos percebemos nele. Celebrar a fotografia é, também, refletir sobre sua trajetória histórica, sua potência estética, seu papel social e seu futuro em tempos de intensa digitalização.
Desde o anúncio oficial da invenção do daguerreótipo em 1839, por Louis Daguerre, a fotografia percorreu um caminho fascinante. Passou de um experimento técnico-científico a um meio de expressão artística; de um processo caro e demorado a uma prática cotidiana acessível, presente em quase todos os bolsos, via smartphones. A imagem fotográfica tornou-se, ao longo do tempo, um dos meios mais eficazes de comunicação, de registro histórico e de construção de identidades.
Entretanto, no século XIX, fotografar era um privilégio restrito a poucos. As primeiras imagens eram fixadas com longos tempos de exposição e equipamentos complexos. Mas, apesar das limitações, a fotografia rapidamente conquistou espaço: era o retrato fiel que não precisava da mão de um artista, a prova documental que a pintura muitas vezes não podia oferecer. Já no século XX, com o surgimento das câmeras portáteis e dos filmes de rolo, a fotografia se popularizou e passou a fazer parte da vida cotidiana. Foi nos álbuns de família, nos jornais, nas propagandas e, cada vez mais, nas artes plásticas.
Todavia, mais do que um registro do visível, a fotografia tornou-se uma forma de pensar e interpretar a realidade. Nas mãos de artistas, jornalistas, ativistas e cidadãos comuns, ela assumiu diversos papéis: denúncia, poesia, memória, resistência. Em contextos de conflito, a fotografia serviu para documentar horrores e mobilizar consciências. Nas celebrações, foi a guardiã dos afetos, dos momentos que mereciam ser eternizados. Ao mesmo tempo, desafiou limites éticos e levantou questões profundas sobre verdade, manipulação e autoria.
No século XXI, com o avanço da tecnologia digital, a fotografia passou por transformações radicais. A câmera se democratizou ainda mais: hoje, bilhões de imagens são produzidas diariamente e circulam em redes sociais, plataformas de comunicação e bancos de dados. A facilidade de criação e compartilhamento de fotos nos tornou não apenas consumidores, mas também produtores constantes de imagens. Essa abundância, no entanto, também nos desafia: como filtrar, interpretar e valorizar o que é produzido? O que diferencia uma imagem significativa de um simples registro passageiro?
A fotografia, no seu dia, merece mais do que homenagens protocolares. É preciso olhar criticamente para sua influência no cotidiano contemporâneo. Estamos cercados de imagens que informam, emocionam, seduzem, manipulam. Vivemos uma cultura do visual onde a aparência frequentemente se sobrepõe à substância, e onde a fotografia, enquanto linguagem, pode tanto iluminar realidades quanto encobri-las. Em tempos de fake news e inteligência artificial, a confiabilidade da imagem como prova se tornou um tema urgente.
A fotografia é um campo fértil de possibilidades criativas
Isso posto, a fotografia continua a ser um campo fértil de possibilidades criativas e reflexivas. É uma ferramenta poderosa na educação, na arte, na ciência e na mobilização social. Ensiná-la e compreendê-la é fundamental para formar cidadãos críticos, capazes de ler imagens com profundidade, de produzir narrativas visuais com responsabilidade e de usar a câmera como instrumento de expressão ética e estética.
Neste 19 de agosto, celebrar a fotografia é também celebrar os olhares diversos que moldam nosso entendimento do mundo. É reconhecer o trabalho dos fotógrafos profissionais e amadores que, com sensibilidade e técnica, ajudam a construir a história visual de nosso tempo. É valorizar as imagens que resistem ao tempo, que contam histórias esquecidas, que provocam reflexões e que fazem da luz algo além do visível: uma linguagem universal.
Em epítome, a fotografia, no seu dia, nos lembra de que ver é mais do que olhar.
Por final, consiste em interpretar, sentir, é escolher um ponto de vista; e, quiçá, seja justamente isso que ela nos ensine de maneira mais profunda: que cada imagem é uma pergunta aberta sobre o mundo, e sobre nós mesmos.
Prof. Dr. Adelcio Machado dos Santos
Jornalista (MT/SC 4155)





















