Tradição entre pescadores e botos é registrada como patrimônio imaterial e reforça a importância da preservação ambiental
Bom Dia SC – A tradicional pesca colaborativa entre pescadores artesanais e botos, realizada no litoral do Sul do Brasil, acaba de receber um importante reconhecimento. A prática conhecida como Pesca com Botos foi oficialmente registrada como Patrimônio Cultural Brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
A decisão foi aprovada durante a 112ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, realizada nesta semana, e garante que o conhecimento tradicional seja inscrito no Livro dos Saberes, categoria que valoriza práticas culturais transmitidas entre gerações.
O reconhecimento reforça a importância histórica, cultural e ambiental dessa atividade singular, que ocorre principalmente no litoral de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, onde pescadores e botos cooperam naturalmente para capturar peixes.
Como funciona a pesca com botos no litoral sul
Nas primeiras horas da manhã, pescadores se posicionam nas margens dos estuários com suas redes e tarrafas, aguardando o momento certo de agir. É então que os botos aparecem na água, indicando a presença do cardume.
Os animais se aproximam da costa, mergulham e saltam, sinalizando o local exato onde os peixes estão concentrados. A partir desse movimento, os pescadores lançam suas redes no momento preciso, aumentando as chances de captura.
Esse comportamento colaborativo é observado há décadas e se tornou um exemplo raro de interação entre humanos e animais na pesca artesanal. A prática ocorre principalmente em sistemas estuarinos, áreas onde águas doces e salgadas se encontram.
Entre os locais com maior ocorrência da atividade estão a foz do Rio Tramandaí, no litoral do Rio Grande do Sul, e o complexo lagunar de Laguna, considerado um dos principais pontos dessa tradição.
Reconhecimento valoriza saber tradicional das comunidades

Segundo o parecer apresentado pelo conselheiro Bernardo Issa, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, a prática possui grande profundidade histórica e revela uma complexa relação socioecológica entre pescadores, botos e o ambiente natural.
O documento destaca que se trata de um saber-fazer tradicional, enraizado em territórios específicos e transmitido de geração em geração pelas comunidades pesqueiras.
Para o presidente do Iphan, Leandro Grass, o registro também amplia a forma como o patrimônio cultural é compreendido no país.
Segundo ele, o reconhecimento envolve dimensões sociais, ambientais e biosociais, propondo um olhar mais amplo sobre a relação entre seres humanos e a natureza.
Já o diretor do Departamento de Patrimônio Imaterial do Iphan, Deyvesson Gusmão, destacou que o reconhecimento faz parte de um esforço recente da instituição para ampliar políticas públicas de valorização do patrimônio imaterial brasileiro, com participação de universidades e da sociedade civil.
Pescadores defendem preservação dos botos
Para quem vive da pesca artesanal, o reconhecimento também representa um alerta sobre a necessidade de proteger os botos e seu habitat natural.
O pescador artesanal Reinaldo Florentino, que participa da atividade há anos, afirma que os animais são parte fundamental da comunidade.
Segundo ele, atualmente cerca de 16 a 18 botos ainda interagem com pescadores na região. Muitos deles são conhecidos pelos pescadores e recebem até nomes próprios, como Borracha, Princesa, Jade, Fúria, Natalino, Cabeça-Feia e Pomba.
Florentino destaca que a relação com os animais é muito próxima e que a perda de um boto é sentida como a perda de um integrante da própria família.
Espécie de boto esta ameaçada de extinção
A pesca colaborativa envolve o chamado boto-de-Lahille, espécie costeira que habita o litoral sul do Brasil.
Em 2025, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) reclassificou o risco de extinção dessa espécie de vulnerável para em perigo de extinção.
Estima-se que existam cerca de 330 indivíduos no mundo, sendo que a maioria vive justamente na região sul do país.
Esse cenário reforça a importância de medidas de preservação ambiental e da proteção dos ecossistemas estuarinos onde a pesca ocorre.
Tradição é patrimônio cultural em Santa Catarina
Antes do reconhecimento nacional, a Pesca com Botos já havia sido registrada como patrimônio imaterial de Santa Catarina em 2018, por meio da Fundação Catarinense de Cultura.
Com a nova decisão do Iphan, a prática passa a integrar oficialmente o patrimônio cultural brasileiro, fortalecendo sua visibilidade e ampliando as possibilidades de políticas públicas para preservação da tradição.
Mais do que uma técnica de pesca, a atividade representa um exemplo único de cooperação entre humanos e animais, simbolizando equilíbrio, respeito à natureza e identidade cultural das comunidades do litoral sul do Brasil.
Com informações da Assessoria de Comunicação Iphan





















