11/07/2026
o Carnaval brasileiro é mais do que uma festa popular; ele constitui um dos mais ricos rituais sociais do país/Foto: Maely Silva - Bom Dia SC

Carnaval – A visão do Antropólogo Roberto Damatta

Bom Dia SC – Preliminarmente, o Carnaval brasileiro é mais do que uma festa popular; ele constitui um dos mais ricos rituais sociais do país, capaz de revelar dimensões profundas da cultura, das hierarquias e das formas de sociabilidade que estruturam a vida nacional. Para o antropólogo Roberto DaMatta, o Carnaval deve ser compreendido como um momento privilegiado de inversão simbólica, no qual as regras cotidianas são suspensas ou relativizadas, permitindo que a sociedade se enxergue a si mesma de maneira crítica, lúdica e dramática. Em vez de representar mera desordem, a festa constitui uma forma organizada de experimentar a liberdade, a igualdade temporária e a comunhão coletiva, funcionando como espelho e comentário social.

No entanto, DaMatta observa que a sociedade brasileira é marcada por uma forte tensão entre hierarquia e igualdade. No cotidiano, predominam as distinções sociais, os papéis rígidos, as relações pessoais que estruturam o acesso a direitos e oportunidades. Há o mundo da “casa”, espaço das relações pessoais, do afeto e da proteção, e o mundo da “rua”, associado às normas impessoais, à competição e às regras universais. O Carnaval atua como uma ponte simbólica entre esses dois universos. Durante a festa, a rua se transforma em casa: desconhecidos se tratam com intimidade, fantasias ocultam posições sociais e o riso cria uma comunidade momentânea que relativiza as distâncias de classe, raça e poder.

Todavia, essa inversão não significa destruição da ordem, mas sua dramatização. Ao permitir que o pobre se fantasie de rei, que o trabalhador comum desfile como destaque de escola de samba, que o corpo seja exibido com exuberância e orgulho, o Carnaval revela desejos, tensões e contradições da sociedade brasileira. As fantasias, os enredos e as músicas funcionam como narrativas simbólicas que comentam a história, a política e os valores nacionais. O riso carnavalesco, muitas vezes satírico, não apenas diverte, mas questiona autoridades, ironiza desigualdades e expõe hipocrisias.

À guisa de exemplo, nas escolas de samba do Rio de Janeiro, por exemplo, DaMatta identifica uma organização que combina disciplina, hierarquia e criatividade coletiva. O desfile, longe de ser improviso caótico, é resultado de trabalho intenso e planejamento rigoroso. Há presidentes, carnavalescos, mestres-sala, porta-bandeiras, ritmistas e componentes, cada qual com função definida. Essa estrutura reflete a própria sociedade brasileira, em que a hierarquia convive com a celebração pública da alegria e da espontaneidade. No entanto, ao entrar na avenida, todos se tornam parte de um espetáculo comum, compartilhando o mesmo espaço simbólico e sendo julgados segundo critérios que valorizam o conjunto e a harmonia.

Outrossim o Carnaval também expressa, segundo DaMatta, uma dimensão ritual semelhante à de outras festas populares analisadas pela antropologia. Assim como em rituais tradicionais estudados por autores como Victor Turner, há um momento de liminaridade, isto é, uma fase intermediária em que as categorias sociais se tornam fluidas e a experiência coletiva gera um sentimento de comunhão. Essa experiência, todavia, é temporária. Ao fim da festa, a ordem cotidiana é restaurada. A quarta-feira de cinzas marca o retorno às obrigações, às hierarquias e às normas formais. A transgressão permitida não destrói o sistema; ao contrário, contribui para sua continuidade, ao oferecer uma válvula de escape e um espaço de expressão simbólica.

Outro aspecto central na visão de DaMatta é o papel do corpo. No Carnaval, o corpo deixa de ser apenas instrumento de trabalho ou objeto de disciplina moral para tornar-se veículo de expressão estética e identidade cultural. O samba, a dança, as fantasias e os desfiles colocam o corpo em evidência, celebrando sua beleza, sua energia e sua capacidade de comunicação. Essa valorização dialoga com a história do Brasil, marcada pela influência africana e pela construção de uma cultura em que música e movimento ocupam posição central. O corpo carnavalesco, livre e criativo, desafia temporariamente as restrições impostas pela vida cotidiana.

O Carnaval não pode ser reduzido a espetáculo turístico ou a simples entretenimento

Por conseguinte, o Carnaval não pode ser reduzido a espetáculo turístico ou a simples entretenimento. Ele constitui um drama social que encena as tensões entre autoridade e liberdade, desigualdade e igualdade, indivíduo e coletividade. Ao estudar a festa, DaMatta demonstra que compreender o Carnaval é compreender o Brasil. A celebração revela tanto os mecanismos de poder quanto os sonhos de inclusão e reconhecimento que atravessam a sociedade. Na alegria ruidosa dos blocos de rua, nos sambas-enredo que narram histórias de resistência e identidade, e na experiência compartilhada da festa, manifesta-se uma forma singular de viver e interpretar o mundo.

Em epítome, a visão antropológica de Roberto DaMatta destaca o Carnaval como ritual de inversão e reflexão social, espaço de crítica simbólica e reafirmação cultural. A festa não é mero descontrole, mas encenação estruturada que permite à sociedade brasileira experimentar, ainda que por alguns dias, a utopia da igualdade e da comunhão.

Por final, ao ultimar o Carnaval, tudo se configura volver ao normal; contudo, algo permanece: a memória coletiva de que outras formas de convivência são possíveis, ainda que efêmeras. É nesse jogo entre permanência e transformação que o Carnaval se afirmar como uma das mais poderosas expressões da identidade brasileira.

Adelcio Machado dos Santos
Prof. Dr. Adelcio Machado dos Santos Jornalista (MT/SC 4155)

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