Quando as avaliações viram competição: o impacto dos rankings e das normas na definição (e distorção) da qualidade
Bom Dia SC – Talvez poucos brasileiros, hoje, acompanham as notícias dos jornais que, nos tempos passados, tinham o condão de expressar a verdade. Atualmente, aqueles que estudam um pouco sabem que a mídia, sobretudo aquela dita “clássica”, divulga os interesses de quem paga. Nesta semana que passou, o Jornal Folha de São Paulo divulgou o RUF – Ranking Universitário da Folha, que traz a lista das melhores universidades do mundo. É uma iniciativa daquele jornal, sendo esta a 11ª edição do tal ranking. Esse ranking classificou 204 universidades brasileiras utilizando os critérios de pesquisa, ensino, mercado, inovação e internacionalização.
Entre as três primeiras no índice geral do Brasil aparem a USP, UNICAMP e a UFRGS. A UFSC, apesar de todas as suas mazelas ideológicas, desponta em 7º lugar dentre as brasileiras. A UDESC em 45º. Dentre as comunitárias estão a FURB em 74º, a Univali em 78º e a Unoesc em 127º e as demais todas acima das 100 primeiras. Não entendo muito da validade desses rankings, até porque, se medirmos a importância que tem a Unoesc, a Univali, a Unesc e todas as nossas comunitárias, por exemplo, para os catarinenses, certamente significam muito mais do que as públicas que atuam em nosso Estado.
Nenhuma das brasileiras está entre as melhores do mundo. Aliás, nossas universidades possuem um sistema de avaliação que encobre a ineficiência, os recursos despendidos e o impacto de suas atividades na vida econômica do país. Inúmeros programas, sobretudo de mestrado e doutorado, são instituídos para cumprir requisitos legais e manter alguns guetos de professores em atividades de “pesquisa”, cujos resultados ficam nas prateleiras, com dissertações e teses sem sentido. Se compararmos, por exemplo, os recursos dispensados em universidades públicas, com os resultados de impacto na economia brasileira e regional, poderemos verificar o valor do esforço despendido. Mas, as avaliações não se voltam para isso. Por quê?
Avaliações para melhorar? O risco de uma visão estreita baseada em rankings e normas
Verdadeiramente, temos a mania de varrer a sujeira para debaixo do tapete e considerar que tudo vai bem. Nossas universidades formam mais de 90 mil mestres e em torno de 25 mil doutores por ano. Em nosso meio, existem, em média 12,3 doutores para cada 100 mil habitantes, enquanto nos países da OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, são 22 doutores para cada 100 mil habitantes.
No Brasil, apenas 27% dos doutores formados trabalham em empresas, na indústria ou na produção industrial, enquanto na China são mais de 60%, 65% na Alemanha e mais de 70% e até 80% na Coreia, Japão, Estados Unidos e outros países. Nossos programas de mestrado e doutorado, em torno de 70%, estão voltados para formar profissionais para a academia.
Quando participava do Conselho Nacional de Educação, tentamos produzir uma orientação para inverter o foco, num esforço para incentivar a CAPES, a mudar esse ritmo e formar mestres e doutores para produzir conhecimento direto no mercado de trabalho. Até conseguimos um bom avanço. Mas, infelizmente, em 2023 mudou o governo e a nova diretriz voltou a focar o olhar para o umbigo da academia e todo o esforço foi engavetado. Uma pena.

Aliás, não se tem mais parâmetros confiáveis para aferir ensino de qualidade. Tudo vai a reboque de ideologia dos governos. A educação brasileira está eivada de normas, avaliações e controles que, ao invés de auxiliar para o desenvolvimento da qualidade, infernizam as instituições, professores, dirigentes e estudantes com burocracia cadavérica, raiz e fonte do estímulo à mais perversa ideologia, cuja produção acadêmica é abundante, mas, com raras exceções, não serve para a vida dos cidadãos, para o país e para a inovação.
É uma vergonha verificar que mais de 5,4 milhões de brasileiros, diplomados no ensino superior, estão sem emprego na área de formação. Como é triste verificar que o Brasil, tão rico de minérios, de água, de terras abundantes e férteis, de clima tropical extraordinário, sem vulcões, terremotos ou grandes desastres naturais, continua na rabeira do desenvolvimento e da qualidade de vida para seu povo.
Neste mês de novembro, presenciamos, também, a prova do ENEM – Exame Nacional de Ensino Médio. Esse exame, hoje, serve para selecionar aqueles que desejam ingressar na universidade pública ou ter alguma possibilidade de acesso de bolsas, como o PROUNI. Não serve para avaliar a qualidade do ensino médio. Aliás, é mais uma prova de resistência do que conhecimento. A prova tem 90 questões e mais uma redação. A prova é elaborada indistintamente para todos e não respeita os portadores de deficiência.
Prova longa, estressante, cheia de pegadinhas, repleta de metáforas, com questões propositadamente malvadas e de indução ideológica. Quer medir o quê, afinal? E os custos para aplicação da prova? Afinal, estamos necessitando de educadores, administradores da educação com nova visão e governantes dispostos a mudar, porque o sistema faz esforço hercúleo para manter tudo como está.
Eu testemunhei a resistência à mudança como Secretário de Estado da Educação e concluo, neste 15 de novembro, dia da República, que vivemos no Brasil o que afirmou Tácito, importante tribuno romano: “as leis proliferam nas repúblicas corrompidas”.
Joaçaba, 15 de novembro de 2025
Aristides Cimadon





















