11/07/2026
Aristides Cimadon, Professor e Advogado
Aristides Cimadon, Professor e Advogado

Professor ou Educador?

Bom Dia SC – O mês de outubro, precisamente no dia 15, é marcado por se comemorar o Dia do Professor. Estou acompanhando a educação formal brasileira há 52 anos. Nesse período tenho visto tempos de progresso e tempos difíceis. Mas, em todo esse período, que já vai longo, a “educação” tem permeado os discursos dos governantes como a salvadora do país e o grande instrumento de desenvolvimento. Mas, o professor continua sendo uma profissão para “qualquer um”. 

Os termos “ensino” e “educação” são confundidos e embaraçados em meio a equívocos conceituais. Os discursos sobre educação integral, educação em tempo integral, educação permanente, aparecem como discursos para melhoria da qualidade ensino, como se fossem salvadores dos inúmeros problemas da educação básica. Mas, escondem objetivos subjacentes para as famílias terem um lugar para deixar seus filhos.

Aliás, confunde-se o professor com educador. Sempre entendi que professor é uma profissão para ensinar. Educar é outra coisa. A educação se faz na família. Na escola se ensina e se exige a prática de uma boa educação que as crianças e jovens aprendem em casa. Infelizmente, nesse discurso confuso de que a escola educa, a família tem transferido para a escola também a função de educar.

A escola básica, sobretudo, virou assistência social, com a anuência dos professores, pois se transformaram, com exceções, numa espécie de tutores. Nesta última eleição, alguns prefeitos se elegeram com discurso da escola de tempo integral, da creche integral e, inclusive, com o discurso para que as escolas infantis e creches atuem de forma integral, inclusive nas férias. Tudo para transformar as instituições de ensino em depósitos de assistência.

Professor ensina habilidades e competências

Professor ensina habilidades e competências. Essa é sua fundação. Professor de português ensina ler, escrever e se comunicar bem. Professor de matemática ensina calcular, medir, raciocinar … assim também devem atuar os professores das demais áreas. Educação é comportamento, caráter, personalidade, virtudes que se aprende com regras e limites desde a tenra idade. A escola é feita para ensinar e aprender. É consabido que ninguém aprende sem disciplina, ordem, esforço, dedicação. Por isso é que a escola necessita de regras e limites.

É compreensível que o professor educa enquanto ensina. Mas não é sua função precípua. Professor é profissão, cujo objetivo fundamental está na transmissão de habilidades, competências e conhecimentos específicos.

Enquanto “educador” exige uma postura mais ampla que envolve a formação integral do indivíduo, inspirando, mediando e estimulando. É competência essencial da família. A essência profunda da educação está na família, enquanto a essência da escola está no ensino. Isso tem se confundido na formação de professores. A própria legislação e regulação da educação formal tem assombrado a compreensão de educação e ensino e do professor com o educador.

Então, se a escola é local de ensino, necessita de bons professores. Que são profissionais com carreira para ensinar. A universidade, como as escolas básicas, é um lugar de ensino, mas também de ciência, de pesquisa e de extensão. Nesses locais circula um profissional chamado “professor”. Um profissional que ensina. Educadores são os pais. Professor, portanto, é qualidade, visão, conhecimento. Não é babá, nem tutor ou curador e muito menos assistencialista social.

Enquanto os professores não encararem sua atividade como profissão de valor, buscando aperfeiçoamento contínuo, sobretudo a grande massa de profissionais do ensino básico, sempre receberão baixos salários. Professor é um construtor de conhecimentos, desenvolvedor de competências… Enquanto não tivermos profissionais professores com alta qualidade, o país não prosperará. Ora, se assim for, professor não é profissão para “qualquer um”, como tem acontecido.

Professor ou Educador?
Aristides Cimadon, Professor e Advogado

A ausência de professores com qualidade, com visão, com capacidade de peitar a inflação regulatória da burocracia estatal, faz prosperar os sistemas mais controversos de avaliação. Em nosso meio, a qualidade do ensino está sendo medida por métodos de avaliação que se configuram em verdadeiro disfarce de charlatanismo, interessados no controle, na ilusão da qualidade e no diploma para todos. Então criou-se a fantasia do IDEB – Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, cujo indicador se torna alto se as escolas não reprovarem ninguém. Instituiu-se, desde 1990, o SAEB – Sistema de Avaliação da Educação Básica, com provas aplicadas em séries alternadas que, a partir dele não se constatou melhoria no ensino.

Em 2004 criou-se o ENADE – Exame Nacional de Desempenho de Estudantes, este para o ensino superior. Criou-se uma inflação legislativa fenomenal para regular e controlar as ações das instituições e do professor, tudo com promessas de melhoria. Tantas leis e regras que se refletem na frase de Tácito, tribuno romano: As leis proliferam nas Repúblicas corrompidas.

Essas modalidades de avaliação, que estão aí há mais de 20 anos, serviram para melhorar o ensino e as condições de qualidade dos professores? Nada. Servem para os discursos dos palanques políticos e das universidades para exibirem o ranking de qualidade. Mas, depois de 30 anos da nova LDB, cá estamos nós, verificando que o Brasil se encontra na rabeira da qualidade de ensino de matemática, português e ciências entre os países, mesmo da América Latina. Apenas 7,7% dos alunos concluintes do ensino médio demonstram aprendizagem adequada em português e matemática.

Quem sabe os governos entendam, um dia, que apesar dos avanços da tecnologia e da inteligência artificial, o professor é imprescindível. Mas o professor com qualidade, que transforme a escola para uma instituição de excelência no ensino e, então, o professor possa ser, também, educador.     

Joaçaba, outubro de 2025.

Aristides Cimadon
Professor e Advogado

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