Bom Dia SC – A gestão de cooperativas ocupa um papel estratégico no desenvolvimento socioeconômico, especialmente em contextos nos quais a inclusão produtiva e a organização coletiva se tornam fundamentais para o fortalecimento de comunidades. Muito além de uma prática gerencial tradicional, a administração de cooperativas exige um conhecimento especializado que combina princípios técnicos de gestão com valores sociais, éticos e democráticos. Trata-se de um campo onde ciência e profissão se entrelaçam, resultando em uma área de atuação multidisciplinar, desafiadora e, sobretudo, essencial para a sustentabilidade do modelo cooperativo.
O cooperativismo, por definição, é um modelo de organização baseado na cooperação entre pessoas que se unem voluntariamente para satisfazer necessidades econômicas, sociais e culturais comuns, por meio de uma empresa de propriedade conjunta e democraticamente gerida. Dada sua natureza peculiar, as cooperativas não visam o lucro em seu sentido tradicional, mas sim o benefício mútuo de seus associados. Isso implica um paradigma distinto de gestão, em que a racionalidade econômica precisa ser equilibrada com a solidariedade, a participação e o desenvolvimento humano.
Neste contexto, a gestão de cooperativas não pode ser reduzida aos modelos tradicionais oriundos da administração empresarial clássica. A ciência da administração, ao longo das décadas, contribuiu significativamente com métodos, técnicas e ferramentas para a condução de organizações. No entanto, no caso das cooperativas, esses saberes precisam ser reinterpretados e adaptados à realidade cooperativista. A lógica da competitividade e do retorno sobre o capital, por exemplo, precisa dar lugar à lógica da cooperação, da transparência, da equidade e da autonomia dos cooperados.
Profissionalização da gestão nas cooperativas
A profissionalização da gestão nas cooperativas é, portanto, uma demanda contemporânea. Historicamente, muitas cooperativas surgiram de forma espontânea, lideradas por grupos de produtores rurais, artesãos, trabalhadores ou consumidores, que, embora motivados por ideais solidários, nem sempre dispunham de formação técnica ou gerencial adequada. Esse cenário gerou desafios quanto à sustentabilidade econômica, governança, inovação e adaptação às mudanças de mercado. Hoje, cada vez mais se reconhece que o sucesso das cooperativas depende não apenas da participação ativa de seus membros, mas também da competência de seus gestores.
Nesse sentido, universidades, institutos de ensino técnico e centros de pesquisa têm desempenhado um papel fundamental ao consolidar a gestão de cooperativas como campo científico. Cursos de graduação, pós-graduação e extensão voltados ao cooperativismo têm se multiplicado no Brasil e em outros países da América Latina, trazendo à tona temas como governança cooperativa, finanças solidárias, marketing social, gestão de pessoas em ambientes participativos, sustentabilidade e inovação social. Esses saberes formam uma base teórica e prática que permite aos gestores atuar com maior assertividade, sensibilidade social e visão sistêmica.
O desafio da profissionalização, no entanto, não está restrito à formação acadêmica. Ele envolve também a criação de uma cultura organizacional que valorize o aprendizado contínuo, a transparência na tomada de decisões, o fortalecimento dos conselhos de administração e a atuação integrada entre lideranças formais e a base social. Nesse processo, o papel do gestor vai muito além do operacional. Ele é, acima de tudo, um facilitador de processos participativos, um articulador de redes de cooperação e um estrategista capaz de conduzir a cooperativa diante dos desafios do mundo contemporâneo.
As transformações recentes no cenário econômico global — como a digitalização, as mudanças climáticas, as novas formas de consumo e a economia de plataforma — também impõem novas exigências à gestão cooperativa. Hoje, espera-se que uma cooperativa esteja conectada a cadeias de valor sustentáveis, adote tecnologias digitais para melhorar sua produtividade, dialogue com novas gerações e promova práticas ambientais responsáveis. Isso requer gestores atualizados, inovadores e comprometidos com os princípios do cooperativismo, mas também com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e com os desafios éticos de nossa época.
Importa ressaltar que, apesar dos desafios, o modelo cooperativo apresenta vantagens significativas quando bem gerido. A proximidade entre os membros, o foco no bem comum, a reinversão dos excedentes na própria comunidade e o comprometimento com o desenvolvimento local tornam as cooperativas mais resilientes a crises e mais alinhadas às demandas por uma economia mais justa e sustentável. Isso ficou evidente durante a pandemia de COVID-19, quando diversas cooperativas mantiveram suas atividades, apoiaram suas comunidades e inovaram em suas formas de gestão e comercialização.
No Brasil, o Sistema OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras) tem desempenhado um papel importante no estímulo à capacitação de lideranças e gestores cooperativistas, promovendo programas de educação corporativa, intercâmbio de experiências e apoio à governança. Essas iniciativas, aliadas à atuação de cooperativas-educadoras e às redes de apoio técnico, mostram que a gestão cooperativa está em um processo contínuo de evolução, reafirmando sua natureza como ciência e profissão.
Em epítome, a gestão de cooperativas deve ser compreendida como uma área de conhecimento que exige formação, ética e compromisso com valores coletivos. Sua prática bem-sucedida não se limita à eficiência administrativa, mas depende, sobretudo, da habilidade de conciliar técnica com propósito, resultado com equidade, planejamento com participação.
À guisa de conclusão, a consolidação dessa área como profissão reconhecida e valorizada é um passo fundamental para que o cooperativismo siga sendo uma alternativa concreta de desenvolvimento sustentável, justiça social e fortalecimento da cidadania econômica.
Prof. Dr. Adelcio Machado dos Santos
Jornalista (MT/SC 4155)





















