Bom Dia SC – Isagogicamente, a arte brasileira despede-se de um de seus nomes mais singulares. Juarez Machado morreu nesta terça-feira, 6 de outubro de 2026, aos 85 anos, no interior do Rio de Janeiro. Joinvilense de nascimento e cidadão do mundo por trajetória e vocação, deixa uma obra que atravessou fronteiras, linguagens e gerações. Pintor, desenhista, escultor, gravador, chargista, cenógrafo, escritor, ator e mímico, Juarez fez da criatividade não apenas uma profissão, mas uma maneira muito particular de observar e interpretar a vida.
De outro vértice, nascido em Joinville em 16 de março de 1941, demonstrou desde cedo sua afinidade com o desenho e com as formas. Aos 14 anos, já trabalhava em uma oficina gráfica, envolvido na produção de rótulos e embalagens de medicamentos. Entre tintas, pincéis, papéis e impressões, começava a desenvolver uma relação com as artes que o acompanharia por toda a vida. Aos 18 anos, mudou-se para Curitiba para estudar na Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Na capital paranaense, concluiu sua formação e realizou sua primeira exposição individual, dando início a uma carreira que logo ultrapassaria os limites do Sul do Brasil.
Em 1965, Juarez Machado seguiu para o Rio de Janeiro. A cidade ampliaria as possibilidades de sua produção artística e o aproximaria definitivamente da comunicação de massa. Trabalhou como chargista em jornais e integrou equipes de criação e humor da televisão. Foi na TV Globo, especialmente durante a década de 1970, que uma faceta de seu talento se tornou conhecida em todo o País: a performance silenciosa na qual interagia, como mímico, com os desenhos que ele próprio produzia diante das câmeras. No programa Fantástico, sua figura e sua linguagem visual tornaram-se familiares a milhões de brasileiros.
Contudo, qualquer tentativa de definir Juarez Machado por apenas uma expressão artística estaria destinada a ser incompleta. Sua produção sempre recusou fronteiras rígidas. A pintura dialogava com o teatro; o desenho com o movimento; a escultura com a cena; o humor com a elegância. Trabalhou na criação de cenários e figurinos para a televisão e participou da produção de videoclipes e musicais de artistas como Elis Regina, Roberto Carlos, Raul Seixas e Emílio Santiago. Essa multiplicidade não representava dispersão. Ao contrário: revelava a unidade de um artista interessado em construir mundos, personagens e narrativas.
Outrossim, a sua obra também teatralidade imediatamente reconhecível. Homens de chapéu, mulheres elegantes, mesas, cafés, taças, bicicletas, cortinas, palcos e personagens envolvidos em encontros ou pequenas situações cotidianas povoaram suas composições. Há nelas movimento mesmo quando tudo está imóvel. Há humor, sedução, mistério e certa nostalgia. Juarez parecia observar a sociedade como quem a contemplava dos bastidores de um teatro, percebendo no cotidiano os pequenos gestos que poderiam transformar-se em cena.
No entanto, essa identidade artística encontrou na Europa um novo território. Depois de circular por importantes centros culturais, Juarez estabeleceu-se em Paris, onde manteve um de seus ateliês e viveu durante décadas. A França se tornaria uma referência decisiva em sua carreira, sem apagar sua origem brasileira e, sobretudo, sua ligação com Joinville. Juarez pertenceu a esses dois mundos sem que um anulasse o outro. Era cosmopolita sem deixar de ser profundamente joinvilense.
Talvez seja justamente em Joinville que essa relação afetiva possa ser percebida de forma mais concreta. Sua presença tornou-se parte da própria paisagem cultural da cidade. O Teatro Juarez Machado leva seu nome, e no Centreventos Cau Hansen encontra-se “O Grande Circo”, monumental painel de aproximadamente 90 metros quadrados formado por 963 peças cerâmicas pintadas à mão. Concebida para dialogar com as diferentes manifestações artísticas abrigadas pelo complexo, a obra tornou-se um dos símbolos culturais de Joinville e foi descrita pelo próprio artista como uma das realizações mais importantes de sua vida.
No entanto, a cidade que o viu nascer soube reconhecer essa contribuição. Em 1982, Juarez recebeu uma homenagem oficial do Legislativo municipal e, em 2015, foi agraciado com a Medalha do Mérito Princesa Dona Francisca, maior honraria concedida pelo Município. Também recebeu, ao longo de sua carreira, distinções no Brasil e no exterior, entre elas premiações relacionadas às artes plásticas, à televisão e à ilustração. Em 1990, recebeu ainda a Ordem de Rio Branco.
Instituto Internacional Juarez Machado
Seu vínculo com a cidade ganhou também um espaço dedicado à preservação e à continuidade de sua obra. Inaugurado em 2014, no terreno da antiga residência de seus pais, o Instituto Internacional Juarez Machado consolidou-se como lugar de memória, exposição e promoção artística. Mais do que preservar trabalhos de Juarez, o espaço reafirma uma ideia que sempre esteve presente em sua trajetória: a de que a arte não deve permanecer isolada, mas circular, provocar encontros e abrir caminhos para novos artistas.
Todavia, a morte de um artista encerra uma biografia, mas não interrompe necessariamente sua presença. Há criadores cuja existência continua materializada nas obras que deixam e na memória daqueles que aprenderam a reconhecer o mundo através de seu olhar. Juarez Machado pertence a essa categoria. Continuará presente nos museus e galerias que guardam seus trabalhos, nos livros que ilustrou, nas imagens conservadas da televisão brasileira, nos ateliês onde produziu e, de maneira especialmente afetiva, nas ruas e espaços culturais de sua Joinville natal.
Após a confirmação de sua morte, a Prefeitura de Joinville decretou três dias de luto oficial. É uma homenagem institucional que traduz também um sentimento maior: a perda de alguém que ajudou a projetar o nome da cidade muito além de suas fronteiras.
Destarte, Juarez Machado partiu aos 85 anos depois de uma existência dedicada à criação. Poucos artistas conseguem construir uma linguagem tão própria que uma obra possa ser reconhecida antes mesmo que se leia sua assinatura. Juarez conseguiu.
Por final, criou personagens, ambientes e cenas que parecem habitar um universo particular, no qual a vida cotidiana encontra permanentemente o palco, a poesia e o humor.






















