03/10/2026
Para Além das Urnas - A Educação como Base para uma Governança de Futuro
Professor Aristides Cimadon, fala neste artigo sobre a Educação como base para uma Governança de Futuro

Para Além das Urnas – A Educação como Base para uma Governança de Futuro

Bons governantes focam em educação básica, técnica, potencializando a formação das crianças e jovens para uma população qualificada

Bom Dia SC – Se analisarmos, atentamente, o desenvolvimento dos países com as melhores qualidades de vida iremos constatar que são Estados que têm, de modo permanente, bons governantes. Nesse momento cívico, em que setembro comemoramos a Independência do Brasil e em outubro escolheremos nossos governantes, parece importante perguntar: qual a relação entre educação, desenvolvimento e bons governantes num país?

Ora, essa relação entre o desenvolvimento de um país e a qualidade de seus governantes é profunda e direta, sendo a governança considerada um dos pilares fundamentais para o crescimento econômico e social sustentável. Bons governantes criam o ambiente necessário para que o potencial de uma Nação se transforme em desenvolvimento real.

Pode-se continuar perguntando: quem são bons governantes? São pessoas líderes que pensam e agem para construir um projeto de Nação, buscando fazer com que o Estado seja instrumento que proporcione a seus habitantes as melhores condições de bem-estar. Então, os interesses de agir estão fora da visão do enriquecimento pessoal, de grupos políticos ou de poder. E dentre as estratégias dos bons governantes estão a busca permanente da estabilidade social e da segurança jurídica. Planejam e executam projetos que promovem a gestão eficiente de recursos públicos, combatem a corrupção, atraem investimentos e riqueza para a sociedade. Atuam fortemente para promover a ciência, a tecnologia e o ensino de qualidade, a saúde e têm muito zelo com a infraestrutura.

Bons governantes focam na educação básica e técnica

Bons governantes possuem visão de Estado e não de governo, porque pensam no futuro da Nação e não na próxima eleição. Sobre educação, bons governantes focam em educação básica, técnica, potencializando a formação das crianças e jovens para uma população qualificada, empreendedora, disciplinada, cuidadosa com o ambiente e valores que promovem a vida. Planejam e agem para que o ensino superior contenha um conjunto de instituições promotoras do desenvolvimento, lincadas com a ciência, produção de conhecimento e alta formação.

Assim sendo, há uma visão circular: à medida que um país se desenvolve economicamente e a população se torna mais instruída, os cidadãos passam a exigir mais de seus líderes, fiscalizando melhor e elegem governantes mais preparados. Portanto, sem lideranças políticas comprometidas com a transparência, a eficiência e o bem-estar coletivo, o desenvolvimento de um país costuma estagnar ou retroceder. Cidadãos instruídos têm maior facilidade para identificar promessas eleitoreiras, irrealistas ou puramente demagógicas.

O ensino de qualidade capacita o cidadão a ler, compreender e comparar planos de governo, focando em propostas estruturais em vez de discursos puramente emocionais. Populações mais educadas entendem melhor o funcionamento do Estado, sabendo a diferença entre as funções de um vereador, deputado, prefeito, senador ou presidente. Compreende a estrutura administrativa do Estado e a função dos Poderes da República. Além disso, sabe filtrar as comunicações da grande mídia, das redes sociais, dos discursos e comunicações de governantes. Sem dúvida, a boa formação abre portas para melhores empregos, maior independência financeira, possibilidade de analisar  melhor os fatos, compreender os movimentos para as escolhas pessoais e profissionais.

Para Além das Urnas - A Educação como Base para uma Governança de Futuro
Professor Aristides Cimadon, fala neste artigo sobre a Educação como base para uma Governança de Futuro

Baixa qualidade da educação

Por outro lado, baixa qualidade de educação impele para a formação deficitária e indica a probabilidade de escolha de maus governantes. Quando o sistema de ensino é negligenciado, a população perde a capacidade de qualificar-se e, consequentemente, de eleger gestores comprometidos com o bem-estar coletivo. Esses governantes, por sua vez, podem não ter interesse político em melhorar a educação, pois um eleitorado dependente e desinformado é mais fácil de ser manipulado. Quando um país consegue romper essa barreira e prioriza o ensino básico, técnico e o pensamento crítico (como fizeram historicamente países como a Coreia do Sul e a Finlândia, entre outros), os cidadãos passam a exigir excelência técnica e ética de seus líderes, consolidando o desenvolvimento da Nação.

Pois bem. Diante dessa premissa de que o desenvolvimento de um país ocorre com bons governantes e bons governantes são escolhidos por um povo que tem alta performance de formação, o que dizer do nosso Brasil? Nós comemoramos, há dias, melhoria nos índices do IDEB, mas esse índice não indica qualidade de aprendizagem.

É um indicador manipulado para rankings de distribuição de recursos e para discursos políticos.
Nós não temos uma avaliação séria. Quem tem avaliação qualificada e mede a condição de aprendizagem real é o PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), de responsabilidade da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e o INAF (Indicador de Alfabetismo Funcional), uma das pesquisas mais importantes do Brasil para entender o verdadeiro nível de leitura, escrita e cálculo da população.

A propósito, segundo a última avaliação do PISA, aplicada entre nós em abril de 2025, 51% dos nossos alunos estão abaixo do nível mínimo de leitura. Em matemática, são 72% abaixo do nível mínimo. O INAF, divulgado em maio de 2024, mostra uma realidade brasileira assustadora: entre os jovens de 15 a 29 anos, 55% não chegam ao chamado “alfabetismo consolidado”. Isto é, não sabem ler corretamente.

Entre os que chegaram ao ensino médio, apenas 38% sabem ler, mas a maioria tem dificuldade de interpretação lógica. Isso reflete a qualidade da escola, sobretudo a pública, que se apresenta sem disciplina, com professores despreparados, currículos inúteis, metodologia de alfabetização inadequada e outras mil mazelas que poderíamos descrever aqui, como justificação de que o ensino brasileiro é muito ruim. Mas muito ruim, apesar de esforços isolados de professores comprometidos.

Infelizmente, há todo um sistema organizado para manutenção de um sistema que reproduz a mediocridade. Construído, sobretudo, a partir da LDB de 1996. E o pior, o sistema é defendido pelos próprios professores, com exceções raras. E mais, com agravante de que, as relações pós pandemia, retirou do convívio a normalidade. O que é normal, hoje? Não é anormal não seguir os padrões impostos pela moda, estudar com afinco, ser disciplinado e viver padrões éticos.

É anormal contestar o modelo de inclusão, reclamar da regulação do meio ambiente, das quotas, da ineficiência da universidade pública. É normal agredir nas redes sociais por qualquer motivo, caluniar, mentir, maldizer. Então nem envelhecer é mais normal. Talvez por isso, por falta de uma boa formação, de capacidade de ler o mundo e a vida, estamos vivendo o culto à ignorância e uma crise moral sem precedentes.

Para concluir. Como escolher os melhores governantes, exigir uma organização político-administrativa menos perversa daquela que temos, fazer reformas que sejam estratégicas para o desenvolvimento, tirar do cargo maus Juízes, governantes incompetentes e corruptos? De que forma poderemos construir uma estrutura eleitoral que permita representação regional e elimine os políticos profissionais de reeleições contínuas? Como estruturar um modelo educacional que promova a Nação que queremos, fazer com que os recursos de impostos sejam destinados a projetos estruturantes essenciais ao desenvolvimento?

De que modo agir para promover a liberdade com fraternidade e respeito, estimular e garantir a livre iniciativa, o empreendedorismo e a riqueza se a educação brasileira é uma das piores do mundo. Não é tempo de desespero, mas de reflexão, pois temos muito que fazer ou, parafraseando Diamond, em sua obra “Colapso”: se não tomar atitudes pela razão, o homem acordará e começara ser fraterno, somente quando perceber que está morrendo pelo seu próprio lixo.

Joaçaba, Outubro, mês de São Francisco, dia 4.

Aristides Cimadon
Professor e Advogado

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