Bom Dia SC – Em preliminar, Celso Ramos ocupa lugar singular na história política e administrativa de Santa Catarina. Sua trajetória revela a figura de um homem público formado na confluência entre a experiência empresarial, a liderança política e a visão planejadora do desenvolvimento estadual. Mais do que simples governador, foi um gestor que compreendeu o Estado como instrumento de organização, indução econômica e promoção social. Em sua atuação, a política não se limitava à disputa partidária ou à administração cotidiana das demandas públicas; assumia a feição de projeto, de planejamento e de construção de futuro.
Destarte, o traço desenvolvimentista de Celso Ramos pode ser compreendido a partir de sua passagem pela liderança industrial catarinense e, posteriormente, pelo Governo do Estado. Antes de assumir o Executivo estadual, esteve vinculado ao ambiente empresarial e à Federação das Indústrias de Santa Catarina, espaço em que se consolidou uma leitura moderna sobre os desafios econômicos do Estado. A FIESC registra que o Seminário Socioeconômico de Santa Catarina, coordenado no período de sua liderança industrial, serviu de base para o Plano de Metas de seu governo, demonstrando a continuidade entre pensamento econômico, diagnóstico técnico e ação administrativa.
Essa conexão entre estudo e governo é fundamental para entender Celso Ramos como gestor desenvolvimentista. Seu governo não se apresentou como improvisação, mas como tentativa de traduzir diagnósticos em políticas públicas. Santa Catarina, à época, era um Estado de vocações regionais variadas, com polos econômicos distintos, carências de infraestrutura, demandas educacionais e necessidade de maior integração territorial. Diante desse quadro, a administração pública precisava deixar de agir apenas de forma reativa e passar a formular prioridades, organizar investimentos e estabelecer metas.
No entanto, o grande símbolo dessa concepção foi o Plano de Metas do Governo Estadual, o PLAMEG. Instituído pela Lei nº 2.772, de 21 de julho de 1961, o plano tinha como finalidade a execução, o aperfeiçoamento e a atualização de obras e serviços públicos, bem como o desenvolvimento econômico e social de Santa Catarina. A própria lei autorizava investimentos para o quinquênio 1961-1965, revelando uma perspectiva de planejamento plurianual, incomum para padrões administrativos mais tradicionais.
O PLAMEG expressava uma compreensão moderna da gestão pública: governar era escolher prioridades, estruturar instrumentos financeiros, articular setores e dar continuidade a obras capazes de modificar a realidade estadual. Não se tratava apenas de construir estradas, escolas, equipamentos públicos ou estruturas administrativas de forma isolada. Tratava-se de compor um sistema de desenvolvimento, no qual infraestrutura, educação, saúde, segurança, justiça, agropecuária e indústria fossem compreendidas como partes de uma mesma estratégia.
Nesse sentido, Celso Ramos pode ser visto como um administrador que buscou transformar o Estado em agente coordenador do progresso. A Lei do PLAMEG previa mecanismos de financiamento, fundos setoriais, convênios e formas de participação do poder público em sociedades de economia mista e empreendimentos de interesse coletivo. Também autorizava a organização de empresas públicas, a participação estatal em empreendimentos e a celebração de convênios com municípios, União, outros Estados e entidades particulares.
Entretanto, essa postura revela uma característica típica do desenvolvimentismo brasileiro de meados do século XX: a convicção de que o crescimento econômico não poderia depender apenas da ação espontânea do mercado. Era necessário que o Estado organizasse condições materiais para o desenvolvimento, reduzisse gargalos, oferecesse infraestrutura e apoiasse setores produtivos. Celso Ramos, nesse contexto, adaptou ao cenário catarinense uma visão administrativa que combinava planejamento, investimento público e articulação institucional.
Sua formação como líder ligado à indústria também influenciou sua maneira de governar. Ao contrário de uma visão meramente burocrática, Celso Ramos tratava a administração pública com senso de eficiência, racionalidade e resultado. O governo deveria agir com método, estabelecer programas e acompanhar sua execução. Essa mentalidade aproximava a gestão pública do planejamento empresarial, sem perder de vista a função social do Estado. O desenvolvimento, para ele, não era apenas aumento da produção, mas melhoria das condições gerais de vida e fortalecimento das bases econômicas e sociais de Santa Catarina.
No entanto, outro aspecto relevante de sua gestão foi a atenção aos setores estruturantes. A FIESC aponta que o governo Celso Ramos ficou reconhecido pelo planejamento estratégico voltado a investimentos em infraestrutura, educação, saúde e outros setores essenciais. Essa amplitude demonstra que seu desenvolvimentismo não se restringia à indústria, embora a industrialização fosse elemento importante. O desenvolvimento catarinense exigia estradas, energia, escolas, equipamentos públicos, apoio aos municípios e capacidade administrativa.
A educação, em especial, aparecia como uma dimensão estratégica. Um Estado que desejava crescer economicamente precisava formar pessoas, qualificar sua população e ampliar o acesso ao conhecimento. Da mesma forma, a saúde e a infraestrutura social eram compreendidas como bases indispensáveis para uma sociedade mais equilibrada e produtiva. Celso Ramos parecia compreender que o progresso material só se sustentaria se acompanhado de políticas públicas capazes de fortalecer a cidadania e reduzir atrasos históricos.
Outrossim faz jus a destaque sua “performance” em momento de instabilidade nacional. Em 1961, o Brasil viveu grave crise política com a renúncia do presidente Jânio Quadros e a tensão em torno da posse de João Goulart. O acervo da FIESC registra documentos do governo Celso Ramos relacionados à gestão dessa crise, inclusive comunicações em defesa da legalidade e da manutenção da ordem. Esse episódio reforça a imagem de um gestor que, além de planejar o desenvolvimento, teve de lidar com a preservação institucional em período delicado da vida republicana.
A marca de Celso Ramos, está na combinação entre liderança política e capacidade administrativa
Por conseguinte, a marca de Celso Ramos, portanto, está na combinação entre liderança política e capacidade administrativa. Ele não foi apenas representante de uma tradição familiar importante na política catarinense; foi também formulador de uma ideia de Estado. Seu governo procurou organizar a máquina pública em torno de objetivos concretos, substituindo o improviso por planejamento e a dispersão por metas. Essa é a essência de sua condição de gestor desenvolvimentista.
Configura-se evidente que nenhuma administração está livre das limitações de seu tempo. O contexto econômico, as disputas políticas, as desigualdades regionais e as dificuldades fiscais impunham obstáculos consideráveis. Ainda assim, a relevância de Celso Ramos está justamente em ter compreendido que o enfrentamento desses obstáculos exigia planejamento institucional. Sua contribuição não deve ser medida apenas por obras ou atos isolados, mas pelo método de governar que procurou implantar.
Destarte, Celso Ramos representa fase em que Santa Catarina buscava organizar seu crescimento e afirmar uma identidade econômica mais dinâmica. Seu governo dialogou com a ideia de modernização administrativa, com o fortalecimento da infraestrutura e com a necessidade de integrar desenvolvimento econômico e social. Ao estruturar o PLAMEG, deixou uma referência de planejamento público que ultrapassou a rotina administrativa e se tornou parte da memória política catarinense.
Em epítome, chamar Celso Ramos de gestor desenvolvimentista é reconhecer nele um governante que pensou o Estado como instrumento de transformação. Sua atuação demonstra que desenvolvimento não se constrói apenas com discursos, mas com diagnóstico, planejamento, investimento e capacidade de execução. Em um tempo de grandes desafios, Celso Ramos procurou oferecer a Santa Catarina uma direção administrativa fundada em metas e em visão de futuro.
Por final, a sua presença permanece relevante na história catarinense: não apenas como político ou industrial, mas como gestor que compreendeu que governar é preparar o amanhã.

Jornalista (MT/SC 4155)




















