Produção de morangos em Rancho Queimado/Foto: Assessoria de Imprensa
Produção de morangos em Rancho Queimado/Foto: Assessoria de Imprensa

Assistência técnica do Senar auxilia olericultores em Santa Catarina

Estiagem e pandemia reduzem produção de frutas, legumes e hortaliças e desafiam agricultores no gerenciamento de custos

Os produtores Rodrigo e Vanusa Kertischka cultivam legumes, frutas e hortaliças em quatro hectares no município de Doutor Pedrinho, no Vale do Itajaí. Helmar Bohne Claus produz 2,6 toneladas de morangos em uma área de 1.218,6 m² em Rancho Queimado, na Grande Florianópolis. Joni Ricardo Gonçalves investiu na produção de 50 mil mudas de maracujá para atender a demanda de produtores em Araquari, no norte do Estado.

Eles fazem parte dos grupos de produtores atendidos pelo programa de Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) em olericultura do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar/SC), órgão vinculado à Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina (Faesc). O programa, em parceria com os sindicatos rurais de Rancho Queimado, Massaranduba e Rio dos Cedros, atende atualmente 77 propriedades em 14 municípios. Todas as atividades são acompanhadas pelos supervisores regionais do Senar/SC, Sueli Silveira Rosa, no Sul e Darci Aloisio Wollmann no Vale do Itajaí. O objetivo é supervisionar a produção dos olericultores, auxiliar no trabalho de campo e orientar no gerenciamento da atividade e na gestão dos negócios.

Neste período de pandemia e de estiagem em Santa Catarina, a ATeG tem auxiliado os agricultores na redução de custos, na otimização da atividade e na tomada de decisões para melhorar a produtividade. O setor foi um dos mais impactados pelas crises hídrica e sanitária e já soma 50% de perdas em algumas regiões do Estado.

Segundo a coordenadora estadual do programa, Paula Araújo Dias Coimbra Nunes, a assistência dá suporte e direcionamento técnico aos produtores na gestão das propriedades. “Na olericultura – um ramo da horticultura – por ser uma atividade dinâmica, com vários cultivos conduzidos em um mesmo local, que exigem prazos curtos e decisões rápidas, o auxílio técnico é importante e faz toda a diferença. O trabalho do programa é repassar novas técnicas, formas de controle de pragas e doenças, além de alternativas viáveis de acordo com as características e o porte de cada produtor”, grifa Paula.

Para os produtores, a assistência tem gerado resultados. “A proposta do programa em auxiliar na organização e gestão para nós foi um divisor de águas porque a gente era acostumado a pegar na enxada e trabalhar, sem perceber a importância de analisar os números da produção. A presença e o convívio com os técnicos são muito importantes”, destaca a produtora Vanusa Kertischka. “Nós melhoramos muito a produção e a gestão da propriedade com a assistência técnica”, acrescenta Helmar Claus.

MERCADO

O presidente do Sistema Faesc/Senar-SC, José Zeferino Pedrozo, destaca que a produção de frutas, legumes e hortaliças é relevante em Santa Catarina. O Estado é o maior produtor de cebola do Brasil e um dos maiores produtores nacionais de maracujá e morango. Quando o assunto é cultivo orgânico, os dados também impactam. Segundo o Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos, os catarinenses ocupam a quarta colocação no País – são mais de 7% dos produtores registrados. Dos 1.251 agricultores certificados no Estado, 70% produzem hortaliças.

“Só na produção de cebola, são 18 mil hectares cultivados por mais de 8 mil agricultores e uma colheita anual de cerca de 500 mil toneladas. A cultura movimenta cerca de R$ 370 milhões por ano no Estado. São números importantes que mostram a força dos nossos produtores e a relevância da assistência técnica na produtividade”.

O auxílio dos técnicos, essencial em campo, também é enaltecido pelo superintendente do Senar/SC, Gilmar Zanluchi. Ele cita que apesar do período de dificuldades na produção, os olericultores não deixaram de ter resultados. “A ATeG se torna ferramenta fundamental neste processo por capacitar os produtores para o gerenciamento das atividades. Esse olhar técnico faz toda diferença no momento de crise”, ressalta.

COMO FUNCIONA A ASSISTÊNCIA

Os técnicos em olericultura da ATeG Jaqueline Carvalho, Bruna Franciny Kamers e Marcos Stürmer detalham que a assistência técnica e gerencial nas propriedades acompanha os produtores em todos as etapas, desde atividades de campo até processos gerenciais. Durante dois anos, os técnicos fazem visitas mensais aos produtores e controlam de perto a evolução da atividade. O trabalho tem transformado o cultivo de hortaliças através de orientações sobre controle de pragas e doenças, adubação, análise do solo, sistemas de irrigação e gestão de negócios. Neste período de pandemia e estiagem, as assistências estão sendo virtuais e focadas na redução de custos de produção, já que a atividade foi fortemente impactada. A falta de chuva causou prejuízos na colheita e a crise sanitária freou a comercialização.

Jaqueline atende 25 olericultores de sete municípios na região do Vale do Itajaí. Os principais cultivos de hortaliças são pepino japonês, repolho, cenoura e alface nas produções orgânica, hidropônica e convencional. Na região, os produtores encontraram alternativas para driblar a estiagem e a queda nas vendas ocasionada pela pandemia. Uma delas foi a entrega de hortaliças orgânicas à domicílio. Com ajuda da técnica, eles criaram grupos no WhatsApp com clientes fixos e garantem a comercialização de porta em porta. “Foi uma solução eficaz para dar vazão aos produtos que estavam com pouca saída devido à paralisação das feiras”, destaca Jaqueline. Além desta alternativa, a comercialização de hortaliças abastece o Ceasa, restaurantes, padarias, mercados e supermercados regionais.

Outras medidas orientadas pelo programa são a redução de custos no período e a adequação do sistema de irrigação para cada cultura. “Os produtores estão tendo que buscar soluções para otimizar o uso da água nas prioridades. Uma delas é a implantação do sistema de irrigação por gotejo (diretamente na raiz), mais adequado para as plantas por economizar água devido à melhor absorção”, explica Jaqueline ao ressaltar que a seca também favorece o surgimento de pragas e requer mudanças na adubação.

“Apesar dos desafios do período, os produtores estão conseguindo atender à demanda regional e organizando as propriedades. Começamos a turma em setembro do ano passado e os avanços são visíveis especialmente no gerenciamento”, destaca a técnica.

ESTIAGEM E PANDEMIA

O técnico Marcos Stürmer, que atende 22 produtores de seis municípios do norte do Estado, destaca que a estiagem dos últimos 60 dias já reduziu 15% da produção de hortaliças e frutíferas na região, que é conhecida pelos altos índices de chuva. No norte, a média de precipitação anual é de 2.500mm, porém de fevereiro a maio, choveu apenas 20mm.  “Isso quebrou a produção, especialmente das hortaliças hidropônicas, do repolho e do maracujá. Serão necessários quatro meses para reverter a situação, com o retorno da chuva”, projeta Marcos.

A pandemia também provocou queda de 50% nas vendas. Segundo o técnico, 2,5 toneladas de hortaliças que seriam descartadas por falta de comercialização foram doadas para o programa Mesa Brasil, do Sesc, que atende ações assistenciais. “Por ser uma região industrial, os produtores abasteciam muitos restaurantes e cozinhas industriais, o que não foi mais possível diante do fechamento dos estabelecimentos na pandemia. A comercialização caiu pela metade”, relata.

A região atendida pela ATeG olericultura produz mil toneladas de alimentos, movimentando R$ 2 milhões por ano. As principais culturas são palmeira real e pupunha, hortaliças folhosas (alface, rúcula, salsinha, cebolinha, couve, repolho e brócolis), microvegetais, arroz, banana, maracujá e morango. Toda a produção abastece o mercado regional, agroindústrias de conservas (palmeira real e pupunha), cooperativas (arroz), além de centrais de abastecimento de Curitiba (maracujá), São Paulo e Rio de Janeiro (banana). Se não fosse a estiagem e a pandemia, os produtores da ATeG teriam muito a comemorar. Em 21 meses do programa, eles tiveram acréscimo de 17% na produção. “Neste ano atípico, o cultivo está parado e os desafios dos produtores é estabilizar a produção e reduzir custos”, observa Marcos.

MORANGO

Em Rancho Queimado, Capital Estadual do Morango, a ATeG atende 25 produtores do fruto pelos sistemas convencional (8) e de canteiros suspensos (17). O município tem 150 produtores, conta com 1 milhão de pés plantados (267.350 do ATeG) e produz entre 1.200 a 1.500 toneladas de morangos por ano. De acordo com a técnica em olericultura, Bruna Kamers, as mudas das plantas, cuja variedade mais produzida é a San Andreas, vêm de viveiros do Chile, Argentina e Espanha, com manejos e produtividades diferentes. O pico da safra acontece entre novembro e fevereiro, mas técnicas permitem a colheita durante o ano inteiro. Os produtores também estão tendo que investir na captação se água e nos sistemas de irrigação para compensar a estiagem.

Com assistência técnica e gerencial desde setembro do ano passado, os produtores estão investindo em manejos preventivos para combater pragas e doenças, melhorando a adubação e o gerenciamento das propriedades. O aumento no custo dos insumos tem preocupado os agricultores. “Em 2019, eles compravam as mudas nas agropecuárias no valor entre R$ 0,92 e R$ 1,00, no começo deste ano, antes da crise sanitária, já estava em R$ 1,09 e agora a R$ 1,25. Esse aumento não acompanha o preço do morango no mercado, que permanece estagnado, variando entre R$ 4,50 e R$ 8”, detalha Bruna.

A técnica afirma que o programa já aponta resultados, especialmente na organização da produção e na gestão das propriedades. “Temos um produtor do sistema de cultivo suspenso que iniciou sua primeira colheita com 20 kg e hoje está em 2.600 kg de morango. Outro, do sistema convencional, passou de 90 para 529 kg. É um ganho de produtividade que atesta a evolução dos agricultores atendidos”, sublinha Bruna.

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