29/08/2026
Da lavoura para as passarelas: bolsas produzidas em Corupá chegam à Semana de Moda Sustentável de Milão
Proposta aproxima agricultura, cultura, educação, artesanato e sustentabilidade

Da lavoura para as passarelas: bolsas produzidas em Corupá chegam à Semana de Moda Sustentável de Milão

Peças confeccionadas com fibra de bananeira serão apresentadas em evento internacional e levam ao exterior a identidade, a criatividade e o potencial da bananicultura de Corupá

Bom Dia SC – O que começa nas plantações de banana de Corupá, no norte de Santa Catarina, agora ganha espaço em uma das principais capitais mundiais da moda. Duas bolsas artesanais produzidas no município, a partir da fibra extraída da bananeira, foram selecionadas para integrar o desfile Brazilian Sustainable Fashion in Milan, que será realizado em Milão, na Itália, no dia 22 de setembro de 2026.

A participação internacional é resultado do projeto “Museu da Banana: valorização da bananicultura além do campo”, iniciativa que transforma um material tradicionalmente considerado rejeito agrícola em peças de artesanato com identidade regional e potencial para alcançar novos mercados.

Além do desfile, as bolsas também estarão presentes em um showroom nos dias 23 e 24 de setembro. A iniciativa representa uma oportunidade de apresentar ao público internacional não apenas produtos artesanais, mas uma história construída ao longo de gerações pelos produtores de banana, artesãos e comunidades de Corupá.

Da lavoura para as passarelas: bolsas produzidas em Corupá chegam à Semana de Moda Sustentável de Milão
Na produção convencional da banana, o pseudocaule da planta geralmente é deixado no campo após a colheita

Fibra de bananeira ganha espaço na moda sustentável

Na produção convencional da banana, o pseudocaule da planta geralmente é deixado no campo após a colheita. O projeto desenvolvido em Corupá propõe justamente uma nova perspectiva para esse material: transformar aquilo que seria descartado em matéria-prima para produtos de valor agregado.

Durante as oficinas gratuitas realizadas na sala maker da Escola Estadual Teresa Ramos, os participantes aprendem desde a história da bananicultura no município até as técnicas de extração e beneficiamento da fibra. O processo permite obter diferentes tipos de fibras a partir do pseudocaule da bananeira, que posteriormente podem ser utilizadas na produção de bolsas, cestos e objetos decorativos.

A proposta aproxima agricultura, cultura, educação, artesanato e sustentabilidade, criando novas possibilidades de aproveitamento para um produto que já faz parte da identidade econômica de Corupá.

A designer de moda e artesã Fabiana Bertoldi destaca que a experiência demonstra como materiais naturais e conhecimentos tradicionais podem dialogar com o mercado contemporâneo.

“Trabalhar com a fibra de bananeira e conectar o nosso artesanato a marcas de moda praia e calçados sustentáveis como a Celeste e a Pacoa foi uma experiência transformadora. Levar as bolsas criadas nas oficinas de Corupá para um evento internacional em Milão demonstra que a moda circular brasileira tem sofisticação, propósito e lugar garantido no mercado global”, afirma.

Da lavoura para as passarelas: bolsas produzidas em Corupá chegam à Semana de Moda Sustentável de Milão
Duas bolsas artesanais confeccionadas durante as aulas do projeto e integrantes do Coletivo Fibra Flor foram selecionadas para o desfile Brazilian Sustainable Fashion in Milan

Corupá ganha projeção internacional

A presença das bolsas catarinenses em Milão ocorre por meio de uma parceria com a Pacoa, marca de calçados sustentáveis de Santa Catarina. A empresa foi convidada pela Celeste, marca brasileira de moda praia consciente, para participar das ações realizadas durante a programação internacional.

A Celeste está entre as dez marcas brasileiras selecionadas pela Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), em parceria com a ApexBrasil, por meio do programa Texbrasil, para integrar a agenda de moda sustentável na Itália.

Nesse contexto, as bolsas produzidas pelo Coletivo Fibra Flor passam a representar também o território onde foram confeccionadas. Corupá, o Museu da Banana e a tradição artesanal local estarão presentes em uma programação voltada à sustentabilidade, inovação e economia criativa.

Mais do que uma vitrine para os produtos, a viagem das peças representa uma mudança de perspectiva sobre a própria bananicultura. A produção agrícola deixa de ser vista somente como atividade ligada à colheita e comercialização da fruta e passa a ser reconhecida também como fonte de matéria-prima para novos produtos e experiências.

Da lavoura para as passarelas: bolsas produzidas em Corupá chegam à Semana de Moda Sustentável de Milão
Iniciativa une valorização da bananicultura local e projeção da economia criativa catarinense no cenário internacional

Artesanato preserva conhecimentos e cria novas oportunidades

O Coletivo Fibra Flor surgiu dentro da proposta de valorização do artesanato associado à cultura da banana. As oficinas reúnem conhecimentos técnicos e memória cultural, estimulando a troca entre diferentes gerações.

Para a mestra artesã e professora do curso, Elfi Minatti Mokwa, ver as peças produzidas no município alcançarem o cenário internacional representa o reconhecimento de um conhecimento construído ao longo de muitos anos.

“É um orgulho imenso ver o trabalho das nossas mãos e a nossa história ganharem o mundo. Saber que a fibra que um dia foi descarte, hoje carrega a identidade de Corupá e preserva o nosso ‘saber fazer’ é a maior recompensa de uma vida dedicada ao artesanato”, afirma.

A coleção desta edição também carrega outro elemento importante da identidade corupaense: as orquídeas. O design das peças foi inspirado na flora da região como forma de homenagear o Orquidário Alvim Seidel, um dos espaços mais tradicionais do município e considerado o segundo mais antigo do Brasil, que completou 120 anos de história e atividades.

A escolha amplia o significado das bolsas, que passam a reunir em uma única peça referências à agricultura, ao artesanato, à biodiversidade e à história de Corupá.

Um novo olhar para os produtores de banana

Para a presidente da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo de Santa Catarina (ABRAJET-SC), Maely Silva, a participação em Milão representa um momento importante não apenas para os artesãos envolvidos no projeto, mas para todos os produtores de banana do município.

“Este é um momento muito significativo para Corupá e, especialmente, para os produtores de banana, porque mostra que o valor da bananicultura vai muito além da fruta que chega à mesa. O pseudocaule, que durante muito tempo foi visto apenas como um resíduo da produção, agora pode se transformar em arte, moda, renda e oportunidade. Quando uma peça produzida com essa fibra chega a Milão, ela leva junto o nome de Corupá, a história dos nossos agricultores e a criatividade de quem transforma a realidade do campo em inovação”, destaca.

Segundo Maely, iniciativas como essa também contribuem para ampliar a percepção sobre o turismo e a economia criativa no município.

“É uma forma de contar Corupá para o mundo por meio de uma história verdadeira, construída pelas mãos de quem vive e trabalha aqui. Para o turismo, isso tem um significado enorme, porque experiências autênticas, sustentabilidade e identidade territorial são cada vez mais valorizadas. A banana deixa de ser apenas um produto agrícola e passa a ser também um elemento de cultura, memória e promoção do destino”, acrescenta.

Museu da Banana completa sete anos

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A instituição trabalha com o conceito de Museologia Social e tem como missão preservar e difundir o patrimônio histórico e cultural relacionado à bananicultura

A projeção internacional das bolsas acontece em um momento simbólico para o próprio Museu da Banana. Criado em 21 de agosto de 2019 pelo Instituto Catarina Brasilis, justamente no Dia Municipal da Banana em Corupá, o projeto completa sete anos de atuação em 2026.

A instituição trabalha com o conceito de Museologia Social e tem como missão preservar e difundir o patrimônio histórico e cultural relacionado à bananicultura por meio do cultivo, da arte, da gastronomia e das memórias da comunidade.

Mesmo sem uma sede física permanente, o Museu da Banana mantém suas atividades de forma itinerante, promovendo ações educativas, oficinas, resgate da história oral e iniciativas de valorização do patrimônio imaterial.

Para Roseli Siewert, presidente do Instituto Catarina Brasilis, responsável pela manutenção do museu, levar essa história para outros países significa também reconhecer o trabalho das gerações que ajudaram a construir a identidade de Corupá.

“Manter o Museu da Banana em movimento é honrar o trabalho de gerações de agricultores e artesãos de Corupá. Nosso trabalho é garantir que a nossa identidade cultural seja valorizada e continue gerando orgulho, inovação e desenvolvimento sustentável para toda a nossa região”, afirma.

Da produção agrícola à economia criativa

A participação em Milão evidencia uma tendência que vem ganhando espaço no turismo e na economia: a transformação de recursos locais em produtos capazes de gerar novas experiências e oportunidades.

No caso de Corupá, a banana passa a ocupar diferentes espaços. Está presente na agricultura, na gastronomia, na memória dos produtores, no artesanato e, agora, em uma coleção apresentada internacionalmente.

A iniciativa também demonstra como a economia circular pode estar conectada ao desenvolvimento regional. Ao aproveitar uma parte da planta que normalmente seria descartada, o projeto cria uma nova cadeia de valor e estimula a criatividade a partir de recursos já existentes no território.

Quando as bolsas do Coletivo Fibra Flor cruzarem o oceano rumo à Itália, elas levarão mais do que fibras naturais. Levarão uma narrativa construída em Corupá, marcada pelo trabalho dos agricultores, pelo conhecimento dos artesãos e pela capacidade de transformar tradição em inovação.

Em setembro, essa história chegará às passarelas de Milão como um exemplo de que a sustentabilidade pode nascer no campo e ganhar o mundo pelas mãos de quem conhece, preserva e reinventa a própria cultura.

Com informações do Instituto Catarina Brasilis

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