03/06/2026
Professor Aristides Cimadon fala neste artigo sobre, os motivos estão impedindo que a educação básica seja, de fato, um período da vida em que o jovem pode ter formação de qualidade
Professor Aristides Cimadon fala neste artigo sobre, os motivos estão impedindo que a educação básica seja, de fato, um período da vida em que o jovem pode ter formação de qualidade

Alguns fatores que que dificultam ensino de qualidade na educação básica

A lucidez é dolorida, mas liberta (Schopenhauer)

Bom Dia SC – É ilusão afirmar que a educação básica, sobretudo na escola pública, possui qualidade. O discurso da qualidade da educação básica pública é um sofisma. Há, sim, alguns destaques. Não se pode negar que há escolas, diretores e professores esforçados e sonhadores. Contudo, a estrutura e a engrenagem educacional, que vai dos currículos à regulação externa, da formação de professores inadequada pelas universidades, sobretudo pelo ensino a distância, até o formato da capacitação continuada, tudo está organizado para que a escola básica, seja uma acomodação onde impera o assistencialismo. Na escola tudo se faz, menos ensino de qualidade.

Atualmente, há uma pressão para escolas de tempo integral sob o manto do discurso da melhoria da qualidade. Outro discurso falacioso. A escola de tempo integral tem como foco um espaço para deixar os filhos, num suposto lugar de aprendizagem, sem as mínimas condições para uma educação verdadeiramente integral. Nesse discurso se voltam, sobretudo, a educação infantil. Ademais, quando se discute ensino técnico, formação profissional,  mérito na promoção de aprendizagem e avaliação séria, tudo se azeda entre gestores e professores. Ora, uma educação sem avaliação séria, sem disciplina, sem promoção pelo mérito, não forma “empreendedores e protagonistas”.

Em 1989, o Ministro da Educação Carlos Corrêa Sant´Ana proclamou acabar com o analfabetismo em 5 anos. Um sonho divulgado em discurso inflamado como tantos. Ora, para um plano desses era preciso bilhões de dólares. De lá para cá foram feitos vários planos popularescos e eleitoreiros para melhoria da qualidade do ensino: Alfabetização e Cidadania, em 1990; Brasil Alfabetizado, em 2003; Compromisso Todos pela Educação, em 2007; Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa, em 2012; Política Nacional da Alfabetização, em 2019; Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, em 2025.

São programas nacionais, divulgados por meio de discursos e promessas, com bilhões de reais dispensados. O que se vê hoje de resultados? O Brasil nos últimos lugares dos rankings internacionais. As avaliações do SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica) mostram que 80% das crianças terminam o segundo ano sem as condições de ler, escrever e contar com desenvoltura. Por outro lado, o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) revela números até mais alarmantes.

Então, pergunta-se: que motivos estão impedindo que a educação básica seja, de fato, um período da vida em que o jovem pode ter formação de qualidade? Sobretudo aqueles mais pobre, que precisam de formação de competências necessárias para zarpar na vida? Por que essa cilada e enrolação com discursos ilusórios? Não há dúvidas, o que falta à educação básica é um sistema de avaliação sério, que promova o mérito e o esforço e, sobretudo, com uma metodologia adequada e professores bem formados e com incentivo em plano de cargos e salários com promoção por mérito.

Não resolve ter escola com carteira estofada, ar refrigerado e merenda farta se o professor não tiver a qualificação adequada com uma proposta pedagógica cujos fins são claros. A falta de uma diretriz pedagógica em conexão com realidade da vida, para formação de competências na educação básica e um método de alfabetização adequado para a educação fundamental, está conduzindo nossa educação básica ao fracasso. Triste, porque as etapas da vida não se repõem e, em consequência, tem-se uma geração malformada, mantendo o país pobre, desigual, corrupto, doente e sem perspectivas.

Esquecemos o “feijão com arroz” do fazer pedagógico, para produzir uma discurseira ideológica confusa, maior parte da pesquisa educacional inútil. Mas, por traz de tudo isso, há uma intencionalidade da diretriz política construída nesses trinta anos.

Alguns fatores que que dificultam ensino de qualidade na educação básica
Professor Aristides Cimadon fala neste artigo sobre, os motivos estão impedindo que a educação básica seja, de fato, um período da vida em que o jovem pode ter formação de qualidade

Educação básica

A educação básica, sobretudo da escola pública, se transformou num circo, num fazer camuflado de inclusão, onde o que menos importa é o aprendizado do aluno. A merenda tem mais valor que o professor, a cadeira estofada e a climatização das salas importam mais que a aprendizagem. Aliás, são a desculpas para não aprender. Como assim? Tantos, como eu, saíram da roça para um seminário, por exemplo, vivendo sem salas com climatização, nem chuveiros com água quente, muito menos cadeiras estofadas. E as gerações dos anos 60, 70, 80 que não tinham transporte escolar, nem merenda, nem material e ou uniforme?

Muitos líderes e pessoas bem-sucedidas, empreendedoras formaram-se nesse ambiente. Os dados da ciência mostram que “o ser humano se desenvolve à medida em que enfrenta resistências”. Uma nação próspera não nasce sem uma educação regulada pelo mérito, pela disciplina, pela avaliação séria.

O sistema de avaliação, como o IDEB, por exemplo, mostra números maquiados, enganosos, cujo objetivo é promover gestores públicos. Não há desenvolvimento de um país, sem um sistema de avaliação que promova o mérito. Não é possível querer incluir todo mundo na mesma régua. É preciso tratar os desiguais na igualdade da desigualdade, com escolas e programas especializadas para cada condição. Nosso discurso de inclusão é uma falácia. Verifica-se uma educação básica em frangalhos: o aluno pode chegar ao final do ano sem saber ler e escrever e tudo está certo.

A burocracia é sufocante, são feitos projetos e mais projetos sem nenhum impacto real, inclusive com prêmios para alguns, que não representam nada para a aplicação prática. Pior, inúmeros dirigentes, gestores e supervisores de educação nunca pisaram em sala de aula, são nomeados para cumprir programas  específicos de determinados partidos e decidem como se deve ensinar.

Interessa notar que, quando as coisas não funcionam a contento, toda culpa recai sobre o professor. O sistema busca um culpado e a família se empodera entendo que  o professor é seu escravo. O aluno reclama seus direitos protegidos pelo ECA (Instituto da Criança e do Adolescente) e pelo Ministério Público. O primeiro, empoderado entendendo que manda na escola, o segundo, nunca entrou numa sala de aula de crianças e jovens e pouco visita a Escola Pública.

Nesse contexto, campeia a indisciplina e o professor perdeu o respeito, a hierarquia e autoridade. Com algumas exceções. São inúmeros os casos de pais ameaçando professores, alunos agredindo professores, que pouco amparo encontram nas direções de escola e nos dirigentes da educação. É verdade, também, que nunca tivemos, em todos os tempos, professores tão despreparados e malformados para lidar com uma geração da era digital. A grande maioria dos professores analógicos ensinando crianças e jovens digitais.

E mais, vivemos num tempo em que as famílias educam seus filhos sem limites, sobretudo nas classes mais economicamente carentes, e as escolas se tornaram verdadeiros depósitos de crianças e jovens. Infelizmente, ao invés de a escola ser o centro a aprendizagem de habilidades, seus maiores valores são a merenda, o transporte, o material gratuito entre outros. Faz-se enorme esforço para cumprir atividades erráticas, que tomam o tempo para aprender aquilo que fundamental: matemática, línguas, ciências e artes.

Nos últimos tempos, a dificuldade se tornou ainda maior para o professor, especialmente aquele dos anos iniciais que, em nome da inclusão, recebe, em sua sala de aula, alunos com excepcionalidades, cujo professor auxiliar, na maioria deles, sequer tem capacitação para ajudar. A sala de aula está se tornando um complexo doloroso. Vemos, portanto, o professor adoecendo, a aprendizagem despencando e a tal inclusão excluindo. De quem é a culpa?

Poderíamos escrever um livro, relativamente robusto sobre o assunto, mas limitamo-nos a indicar 10 (dez) variáveis que nos levam a uma educação básica de qualidade ruim:

  1. Qualidade de formação dos professores, cuja origem está no curso de formação que, em consequência leva ao conformismo, falta de autoridade, desvalorização e baixos salários.
  2. Excesso de Burocracia em nome qualidade. Professores passam grande parte do tempo preenchendo formulários, plataformas, relatórios, registros e tarefas que desviam do seu foco para o ensino.
  3. A escola passou a ser solução para resolver problemas de violência, conflitos familiares, uso excessivo de celular, problemas emocionais e falta de limites. Em consequência o professor se tornou uma espécie de assistente social ao invés de ensinar habilidades e conhecimentos específicos.
  4. A tal inclusão de alunos com dificuldades, turmas numerosas, formação insuficiente e desconectada da realidade dos professores, especialmente nos anos iniciais.
  5. Mudanças permanentes das políticas educacionais, com currículos inadequados e insistência em incluir conteúdos de interesses politiqueiros aprovados pelo Congresso Nacional e regulação pelo Ministério da Educação e Assembleias Legislativas.
  6. Perda da autoridade do professor, ausência do poder da disciplina, escolas com gestores escolares ineficientes que não sabem ou não querem assumir responsabilidade para estabelecer regras mais rígidas e diretrizes seguras na escola.
  7. Uso político ideológico nas escolas, com professores militantes, desqualificados, em desprezo dos princípios científicos.
  8. Tecnologia sem critérios e sem conhecimento técnico para o uso dos instrumentos digitais.
  9. Infraestrutura deficiente, sobretudo de laboratórios e áreas para atividade prática.
  10. Gestão pública ineficiente, esbanjadora, cheia de penduricalhos que privilegia incompetências, excesso de pessoal, sobretudo em atividades burocráticas nas secretarias, coordenadorias regionais, estâncias de regulação, controle e supervisão.

Poderíamos indicar, aqui, inúmeros outros fatores, com detalhes e exemplos. Porém, esta é apenas uma reflexão em um artigo simples, sem os rigores da ciência. Dentre todos os motivos que levam a educação ser a tragédia em que se encontra, eu aponto um, que julgo essencial: os cursos de formação de professores, sobretudo os mestrados e doutorados em educação, nos seus vários matizes das licenciaturas.

Esse assunto será objeto de uma reflexão próxima. Nossos programas de Pós-Graduação construíram e constroem uma narrativa pedagógica teórica e metodológica completamente desconexa com a realidade, com linguagem rebuscada, ideológica, feita para um mundo que faz odiar o empreendedorismo, a disciplina, o respeito, o sacrifício para obtenção de objetivos de desenvolvimento, com um discurso que cria a consciência da servidão voluntária.

O que fazer? Para atingir as metas do Plano Nacional de Educação, recém aprovado, é preciso fazer uma grande reforma na educação brasileira, com revisão integral da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB.

Joaçaba, junho de 2026

Aristides Cimadon
Professor e Advogado

Compartilhe:

WhatsApp
Facebook
Twitter
Email
LinkedIn

Notícias Relacionadas

error: Content is protected !!